Para os antigos filósofos, o desejo era simplesmente aquilo que não possuíamos e almejávamos. Era a sensação de falta. Assim, quando conquistávamos o objeto de desejo, este deixava de nos atrair, pois não mais nos faltava. Os Estoicos, por exemplo, ponderavam sobre a possibilidade de transcender o desejo.
Spinoza argumentava que o desejo era a perseverança, a contínua luta pela preservação da própria existência. Rousseau, por sua vez, considerava o desejo como a própria felicidade. A ideia de que somos mais felizes enquanto desejamos do que quando possuímos está enraizada na percepção de que a realidade muitas vezes não corresponde às expectativas.
Por exemplo, você deseja muito um brinco de ouro, trabalha, junta dinheiro por meses. Toda vez que lembra do brinco que ainda vai comprar fica extremamente feliz e motivado. Até que chega o grande dia e, com o seu 13° salário, consegue comprar o tão sonhado brinco de ouro. Você o coloca na orelha, se vê no espelho, acha lindo, mas logo depois o esquece no porta-joias porque viu Gisele Bündchen usando uma pulseira incrível e agora precisa ter uma igual.
Essa constante busca por novos objetos de desejo, para manter a sensação de felicidade e controle na sociedade, é uma criação do sistema capitalista, que depende do consumo para se manter.
O marketing, nesse contexto, desempenha um papel fundamental. Ele nos apresenta um mundo idealizado, repleto de carros, viagens e produtos que prometem realizar nossos sonhos e desejos mais profundos. Ele nos mostra uma versão mais feliz sendo possuidores daquele produto.
No entanto, o marketing raramente mostra a realidade por trás dessas promessas. Não nos mostra o trânsito caótico ou as horas de voo desconfortáveis. Em vez disso, nos vende uma ideia de liberdade, aventura e diversão. As empresas investem pesadamente em estratégias, utilizando técnicas sofisticadas baseadas em neurociência para manipular nossos desejos e comportamentos de consumo.
As pessoas se tornam leads, os textos se transformam em copywriting e os produtos são lançados em eventos coletivos para criar o efeito de manada. Assim, somos constantemente bombardeados por mensagens persuasivas que nos induzem a comprar e consumir cada vez mais.
Há poucos anos escolhi investir em um curso online e comecei a estudar marketing digital para promover o meu curso de escrita criativa. Todos os especialistas traçavam as mesmas estratégias para lançar um curso: primeiro, se apresente como uma autoridade, use um storytelling (uma narrativa), ensine algo de valor e mostre como o curso tem algo de muito mais valioso que aquelas migalhas gratuitas. Por fim, mostre que são poucas vagas para aproveitar o gatilho da escassez e ofereça um desconto para que todos comprem enquanto ainda estão ‘quentes’ ao seja, ‘empolgados’ com todo o discurso construído.
Ao observar pessoas que vendiam cursos digitais percebi esse padrão de repetição. Todos fazem exatamente o mesmo caminho. Todos repetem essa fórmula. E por mais que eu saiba o que estão fazendo, essa ‘hipnose’ que é criada com esse discurso, ainda me deixa com vontade de consumir o produto deles.
Claro que, ao ter consciência daquilo, eu saio do efeito manada. Tenho o desejo de consumir, mas não tenho mais o impulso de comprar imediatamente. Dessa forma busco outros caminhos, outras bibliografias e acabo desapegando daquele produto que seria dez vezes mais caro.
O entendimento de que estamos sendo manipulados nos auxilia a acalmar as emoções e a fazer escolhas de consumo de maneira lógica, em vez de agir por impulso.
Agora que você está ciente de que seus desejos são influenciados pelo mercado. Mesmo que se considere uma pessoa racional, capaz de resistir aos impulsos e de não ceder às influências das redes sociais, apenas seguindo alguns youtubers sobre filmes, interagindo com amigos e talvez assistindo a alguns vídeos engraçados de gatos, ainda assim, você inevitavelmente se verá notando a nova blusa postada por sua amiga, o lanche que seu colega experimentou na nova hamburgueria gourmet do bairro, ou mesmo o corte de cabelo diferente do poodle da vizinha.
Quando menos esperar, estará no supermercado comprando um sachê para seu gato, pedindo um lanche pelo iFood ou navegando na Shein em busca de uma blusa nova.
Mias compras demanda mais tempo e dinheiro, ou seja, mais problemas para resolver, para pagar a fatura do cartão de crédito, abarrotado por produtos que talvez já tenham perdido o brilho quando a conta chegar. É um ciclo bastante frustrante que, não atoa, fez com que o Estoicismo voltasse a moda.
Os estoicos teorizam e recomendam não desejar através da prática da ataraxia, que é a busca pela tranquilidade da mente e da alma.
Eles argumentam que o desejo é uma forma de perturbação mental, pois nos coloca em um estado de constante insatisfação e ansiedade. Segundo os estoicos, o desejo surge da nossa falta de aceitação em relação ao que já temos e da busca incessante por aquilo que não possuímos.
Para os estoicos, alcançar a ataraxia significa cultivar a indiferença em relação às coisas externas e aprender a viver de acordo com a natureza, aceitando o que acontece com resignação e equanimidade.
Eles enfatizam a importância de focar apenas no que está dentro do nosso controle, que são nossos pensamentos, escolhas e ações, e deixar de lado as preocupações com aquilo que está fora do nosso domínio.
O estoicismo é praticamente o oposto do marketing. Enquanto um preconiza a necessidade de ter um objetivo, o outro recomenda não se deixar abalar. Ele nos ensina a encontrar tranquilidade através do desapego das coisas que não podemos controlar. Como disse Epicteto (não com essas palavras), “Se algo te incomodar, jogue fora. O que importa é minha paz de espírito.”
Essa filosofia nos convida a olhar para dentro de nós mesmos, reconhecer nossos desejos e impulsos e questionar se realmente precisamos daquilo que almejamos. Ao compreender que muitas das nossas aspirações são influenciadas pelo mercado e pela sociedade, podemos adotar uma abordagem mais consciente em relação aos nossos desejos.
E é com base na prática recomendada dos estoicos que inspira o Poder do Desapego.
