O Desapego da Opinião Social

Eu sou muito sensível ao calor. Quando a temperatura passa dos 25 graus, começo a ficar de mau humor e a ter enxaqueca, então procuro lugares com ar condicionado.

 
Trabalhei muito tempo dirigindo um carro sem ar condicionado, então sempre buscava uma sombra para estacionar durante o trabalho. Duas vezes me pediram para mover o carro para acomodar outro veículo. Nas duas vezes, acatei o pedido, mas ao retornar ao carro, estava exausta do trabalho e com mal-estar pelo calor intenso. Na terceira vez, expliquei que precisava ficar na sombra porque passava mal com o calor, e a pessoa entendeu e foi procurar outro lugar.

 
Percebi que não devia mais me colocar em situações desconfortáveis para agradar os outros.


Isso é importante para todos. Por exemplo, se alguém na família só fala mal de você na frente dos outros, pare de convidá-la para sua casa. Se outra pessoa reclama da maneira como você lava a louça, apenas ofereça a louça e pergunte se ela quer lavar.

 
É libertador falar sobre o que nos deixa desconfortáveis. Comentários maldosos devem ser respondidos com educação e firmeza, mesmo se vierem de familiares, pois não devemos aceitar desrespeito apenas porque são parentes.


Aceitar a si mesmo e entender os próprios limites nas relações interpessoais é um processo complexo e essencial para o bem-estar emocional. Estudos psicológicos sugerem que a autoaceitação está correlacionada com níveis mais baixos de ansiedade, depressão e estresse.

 
Quando reconhecemos nossos limites e os comunicamos de maneira clara e assertiva nas interações sociais, promovemos relacionamentos mais saudáveis e gratificantes.


Pesquisas demonstram que indivíduos que estabelecem limites saudáveis em suas relações tendem a ter maior autoestima e satisfação pessoal. Além disso, são mais propensos a desenvolver vínculos interpessoais significativos e duradouros. Ao compreender nossos próprios limites, somos capazes de nos proteger contra comportamentos abusivos ou invasivos, promovendo um ambiente de respeito mútuo em todas as esferas da vida.


No contexto do trabalho, entender e comunicar nossos limites pode melhorar o clima organizacional e a eficiência no desempenho das tarefas. Profissionais que estabelecem limites claros com colegas e superiores são mais produtivos e menos propensos a experienciar esgotamento profissional. Isso porque a comunicação assertiva dos limites pessoais contribui para um ambiente de trabalho mais saudável e colaborativo, onde as necessidades individuais são respeitadas e valorizadas.


No âmbito das amizades e dos relacionamentos românticos, compreender e comunicar nossos limites também é crucial para estabelecer vínculos saudáveis e duradouros. Pessoas que expressam claramente suas necessidades e limitações tendem a desenvolver relações mais autênticas e satisfatórias. Isso porque a transparência nas interações interpessoais promove a confiança mútua e reduz conflitos decorrentes de expectativas não atendidas.


O processo de se aceitar e entender os próprios limites nas relações interpessoais não apenas promove o bem-estar emocional, mas também fortalece os vínculos sociais e melhora o desempenho profissional. A pesquisa sugere que desenvolver essa habilidade é fundamental para uma vida equilibrada e satisfatória.


Mas e se eu desapegar tanto da opinião dos outros e das normas que afligem ao ponto de me tornar ‘esquisito’.

 
Deixe- me te contar outro caso pessoal: eu aceitei que sou diferente do que se espera da uma mulher brasileira. Odeio futebol, praia, calor, cerveja, novela. Não sei cozinhar, não arrumo a cama quando tenho visitas (e o que você foi fazer no meu quarto???), não como carne, churrasco ataca minha rinite, coentro nem pensar, detesto dirigir (logo, não entendo nada de carro) e não faço cerimônia ao dizer que preciso ficar sozinha para um detox social.


Minha mãe sempre disse que sou chata e insuportável por esses ‘detalhes’ e por muitos anos eu acreditei. Mas ao conversar com pessoas sobre coisas que eu gosto, me disseram que sou divertida, adoro cinema, entendo de diretores, de bons filmes, de museus, exposições legais para ver na cidade, óperas, música clássica, quadrinhos, séries, lojas diferentes para comprar bugigangas.
Vou contra o que é ‘esperado’, mas ‘entrego’ novidades.


O medo de parecer esquisito, ou a preocupação excessiva com a opinião alheia e o receio do isolamento, é um fenômeno profundamente enraizado na psicologia humana. Pesquisadores como Erving Goffman, um sociólogo canadense, exploraram a ideia de “manutenção da face”, que se refere à preocupação das pessoas em preservar uma imagem socialmente aceitável de si mesmas. Segundo Goffman, as interações sociais são baseadas em performances onde os indivíduos buscam constantemente validar suas identidades e evitar a estigmatização.


Além disso, filósofos como Søren Kierkegaard e Jean-Paul Sartre também abordaram a questão do medo do isolamento e da estranheza. Kierkegaard discutiu o conceito de “desespero” como um estado de angústia causado pela falta de autenticidade e pela conformidade excessiva com as expectativas sociais. Sartre, por sua vez, explorou a ideia de “má fé”, onde os indivíduos negam sua liberdade e responsabilidade ao se conformarem com papéis pré-estabelecidos pela sociedade, o que pode levar ao isolamento existencial.


Esses pensadores destacam que o medo de parecer esquisito está ligado à necessidade humana de pertencimento e aceitação social. As pessoas muitas vezes evitam expressar suas verdadeiras identidades ou opiniões por medo de serem rejeitadas ou marginalizadas pela comunidade. Esse medo é exacerbado pela pressão social e cultural que valoriza a conformidade e castiga a diferença.
A pressão para ter um ‘padrão’ social aceitável faz com que todos pareçam iguais. Não é a toa que filtros do TikTok estão deixando todos com a mesma cara. Consultórios de cirurgiões plásticos estão lotados de pessoas que querem se parecer com o ‘filtro’.

 
Encontrei um professor que me ensinou filosofia no ensino médio e perguntei para ele como estava a sala de aula hoje em dia. “Um terror. Todas as meninas com o mesmo tom de loiro no cabelo, os meninos com o mesmo corte. Sua turma foi a última com personalidades reais.” Bom… eu tinha o cabelo azul na época.


É importante reconhecer que a busca pela aceitação dos outros nem sempre leva à realização pessoal e felicidade. Indivíduos que se conformam excessivamente com as expectativas sociais podem experimentar altos níveis de ansiedade, depressão e falta de autenticidade. Por outro lado, aqueles que têm coragem de serem autênticos e abraçarem sua singularidade muitas vezes encontram um sentido mais profundo de conexão consigo mesmos e com os outros, mesmo que isso signifique enfrentar o isolamento temporário.


O acumulo de situações que não podemos suportar, mesmo que sejam poucas, pode ser comparado às gotas que caem dentro de um copo. Cada situação estressante, seja no trabalho, nos relacionamentos ou em outras áreas da vida, adiciona uma gota ao copo. Com o tempo, essas gotas podem transbordar, levando a um estado de sobrecarga emocional, estresse crônico e até mesmo problemas de saúde mental, como burnout, depressão ou ataques de pânico. O copo representa nossa capacidade de lidar com o estresse e a pressão da vida diária. Quando ele transborda, isso indica que ultrapassamos nossos limites e estamos à beira de um colapso emocional.


Desapegar do que não faz sentido, seja fisicamente ou metaforicamente, é essencial para preservar nossa saúde mental e emocional.

 
No sentido físico, desapegar pode significar livrar-se de objetos, atividades ou responsabilidades que nos causam estresse ou não contribuem positivamente para nossa vida. Isso pode incluir limpar espaços físicos desordenados, abandonar compromissos que nos consomem energia ou até mesmo mudar de emprego se estivermos presos em uma situação insustentável.

 
No sentido mental, desapegar envolve liberar pensamentos negativos, emoções tóxicas e padrões de comportamento prejudiciais que nos impedem de progredir e ficar em paz consigo mesmos.

 
Significa deixar de lado expectativas irrealistas, ressentimentos passados e a necessidade de controle sobre tudo. Ao desapegar do que não faz sentido em nossa vida, abrimos espaço para o crescimento pessoal, a felicidade genuína e a construção de relacionamentos saudáveis.


Pode parecer um pouco simplista, mas o olhar do outro é uma das coisas que mais me paralisava. Sofri muito bullying na escola, então, tinha medo que minha aparência, uns quilos a mais, uma roupa mais larga ou mesmo meus dentes tortos seriam o estopim para trazer aqueles valentões de volta. Fazia o possível para passar despercebida. Tinha alguns raros momentos de coragem, como quando pintei o cabelo de azul, mas no geral, eu encontrava conforto no meu isolamento.
Focar no “agora” é uma ideia que enfatiza a importância de viver plenamente no momento presente, em vez de ficar preso ao passado ou preocupado com o futuro. Essa abordagem, popularizada pelo autor Eckhart Tolle em seu livro “O Poder do Agora”, sugere que a maior fonte de felicidade e paz interior está disponível para nós no momento presente.


Viver no agora significa estar consciente do que está acontecendo ao nosso redor, bem como dentro de nós mesmos, sem julgamento ou resistência. É sobre aceitar a realidade presente, mesmo que não seja exatamente como gostaríamos que fosse, e encontrar paz interior independentemente das circunstâncias externas.


Sobre essas circunstâncias, vou falar sobre elas mais pra frente.


Quando nos concentramos no agora, somos capazes de aproveitar ao máximo cada experiência e encontrar beleza nas coisas simples da vida. Isso nos permite estar mais presentes em nossos relacionamentos, ser mais produtivos em nossas atividades e sentir uma sensação mais profunda de gratidão e contentamento.


Além disso, viver no agora nos ajuda a liberar o peso do passado e a ansiedade em relação ao futuro. Muitas vezes, carregamos o fardo de arrependimentos passados ou preocupações futuras, o que nos impede de experimentar verdadeiramente a alegria e a plenitude do momento presente. Ao nos libertarmos dessas amarras mentais, podemos experimentar uma sensação de liberdade e leveza que nos permite viver com mais autenticidade e alegria.


Entender e aceitar a si mesmo é um processo crucial para o crescimento pessoal e a realização. Reserve um tempo para se observar sem julgamento, seja através da meditação, da escrita reflexiva ou simplesmente pausando para refletir sobre seus pensamentos, emoções e comportamentos. O ideal, é claro, é com a ajuda de um terapeuta.


Ao se tornar mais consciente de si mesmo, você pode identificar padrões de pensamento ou comportamento que podem estar causando desconforto ou limitando seu crescimento.


Cultivar uma atitude compassiva em relação a si mesmo é essencial para a aceitação pessoal. Em vez de se criticar por falhas ou imperfeições, pratique a autocompaixão, oferecendo a si mesmo gentileza, compreensão e apoio. Lembre-se de que todos enfrentam desafios e cometem erros, e isso faz parte da experiência humana.


Outra estratégia importante é explorar seus valores pessoais.
Quais são suas prioridades e aspirações? Ao entender seus valores, você pode tomar decisões mais alinhadas com o que realmente importa para você, direcionando suas energias para áreas mais significativas e gratificantes.

 
Você deve fazer um exercício de perceber se seus valores pessoais estão alinhados com o seu objetivo; com o seu topo da montanha.

 
Pratique o perdão, tanto para os outros quanto para si mesmo, e concentre-se em viver no presente, aproveitando as oportunidades que o agora oferece.
Sobre as circunstâncias externas, vamos fazer um exercício para entender os nossos limites. Minha família portuguesa dizia “O que não pode ser resolvido, resolvido está.”


O que isso quer dizer?


Existem situações, circunstâncias ou mesmo pensamentos de outros os quais não podemos controlar.

 
Entendo o quanto é frustrante parecer que você é o ‘esquisito’ da turma. Mas o que você pode fazer em relação a isso?


Se adaptar ao que é esperado pelos outros para se encaixar e ser aceito? Isso é uma receita para o colapso mental. Lembro que minha mãe dizia aquela frase clássica: “só porque vai todo mundo pular da ponte, você também vai?”
É importante que você siga as leis, tenha respeito, seja ético. No mínimo, lembre-se das complicações legais que poderá ter caso faça diferente. Por mais que algumas coisas não te agradem (como acordar cedo e ir trabalhar, ou atender bem aquele cliente que é mal educado), existem algumas regras sociais que precisamos cumprir.

 
É tão importante assim ser aceito pela sua turma?

 
Quando tentava socializar na faculdade (por motivos de contato de trabalho futuro, o famoso “networking”) acaba indo para algumas festas que me arrependia assim que pisava dentro do bar. Ficava pensando que seria muito melhor ficar vendo um filme, que preferia estar na minha cama lendo um livro. Até que realmente comecei a fazer essas coisas. O alívio de não ter que me forçar a estar em um lugar que não gostaria era incrivelmente libertador.

 
Nesse ponto, minha psicóloga diria que eu não posso me isolar. Mas insisto que não é isolamento. É uma socialização seletiva. Tem lugares que não gosto ir. Ponto.

 
Antes só do que mal acompanhado, ou, como disse Nietsche: Não me roube a solidão sem antes me oferecer a verdadeira companhia.


Beleza, mas você ainda sofre com o julgamento do outro, não é?


Saiba que não podemos mudar o outro. Não podemos mudar seus pensamentos e sentimentos, por mais que a gente tente, a tendência é gerar uma enorme frustração. Sabe quando você estava no colégio e era apaixonado (a) por aquele (a) colega que nunca te deu bola? Pois é exatamente isso. O melhor é ir para o próximo da fila.

 
As escolhas e ações de uma pessoa são delas. Por mais que você queria que alguém vá pelo caminho X ao invés de Y, só ela pode escolher. É como quando estamos de carona e avisamos o motorista que a via a esquerda é mais rápida do que continuar reto, mas ele prefere fazer o caminho mais longo. É frustrante, mas quem está dirigindo é ele.

Crenças, traços de personalidade e valores também cabe apenas aos outros. Não podemos fazer um introvertido se divertir em uma discoteca, assim como vamos matar um extrovertido de tédio se o levarmos a um museu.

 
Não posso obrigar meu vizinho a pintar a casa dele de uma cor que combine com a minha.


Estabelecer os seus limites também inclui entender até onde você pode ir com outra pessoa. Você não pode forçar alguém a gostar de você, fazer sua avó gostar de Megadeth (banda de Rock), levar o seu sobrinho extrovertido para um passeio na biblioteca municipal.

 
Você não pode mudar o outro. Ao aceitar isso, você pode focar energia em coisas que você pode mudar em si mesmo: como hábitos e comportamentos (fazer uma dieta, exercícios ou começar uma higiene do sono, por exemplo).

 
Também existem coisas em nós mesmos que não podemos mudar, como o processo de envelhecimento, alguns traços de personalidade (não tem ninguém, nem terapeuta/analista/hipnólogo/mágico, que me faça gostar de praia), pré-disposições genéticas e várias outras características.

 
Vale a pena se estressar e lutar contra?


Por fim, avalie o que é essencial em sua vida. Reflita sobre as áreas onde você pode estar se apegando a coisas, relacionamentos ou padrões que não mais servem ao seu crescimento ou felicidade.

 
Pergunte a si mesmo: o que realmente importa para mim? O que eu posso deixar ir para criar espaço para o que é verdadeiramente significativo?

 
Ao identificar e desapegar do que não é essencial, você pode abrir espaço para o crescimento pessoal, relacionamentos mais saudáveis e uma maior sensação de contentamento e realização.


Principalmente, aceite-se. Aceitar a si mesmo é um processo contínuo e fundamental para o bem-estar emocional.

 
Essa jornada de autoaceitação não acontece da noite para o dia; requer tempo, paciência e autocompreensão. À medida que vivemos e acumulamos experiências ao longo da vida, temos a oportunidade de nos conhecermos mais profundamente. Cada desafio, erro ou triunfo contribui para nossa compreensão de quem somos e do que valorizamos.


A prática regular da reflexão e autoavaliação nos permite desenvolver uma maior autoconsciência e autocompreensão. Conforme nos tornamos mais familiarizados com nossos próprios pensamentos e emoções, tornamo-nos mais capazes de aceitar todas as partes de nós mesmos, incluindo nossos aspectos menos desejáveis. Essa aceitação não significa necessariamente aprovar ou perpetuar comportamentos prejudiciais, mas sim reconhecer nossa humanidade e nossa capacidade de crescimento e mudança.


A autoaceitação nos leva a desapegar do fardo mais pesado: das expectativas.
Conheço pessoas que ganharam tanto dinheiro no começo da vida profissional que fizeram planos para se aposentar aos 40 anos de idade, mas devido a maus investimentos, hoje, com 60, carregam o fardo de ainda precisar trabalhar, esperando pela aposentadoria.

 
Também conheço pessoas que esperam pelo príncipe encantado ideal e por isso, deixaram diversas pessoas divertidas passarem por suas vidas sem se envolverem.


As expectativas que criamos para nós mesmos, a nossa autocobrança, são pedras inúteis que carregamos na mochila e que só fazem com que comecemos a odiar a trilha a caminho do topo da montanha.

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