O Desapego da Família de Origem

O desapego da família de origem pode não ser tão simples quanto o desapego de um relacionamento amoroso. Primeiramente, porque nascemos em um ambiente familiar e somos influenciados por seus pensamentos e pela maneira como eles encaram a vida. Assim, temos toda uma estrutura que molda nossos pensamentos, nos inserindo cada vez mais nessa bolha. Às vezes, essas bolhas são tóxicas e não percebemos porque já estamos acostumados a ser tratados de determinada maneira desde a infância.


Uma pessoa que nasce em uma família racista pode começar a questionar as certezas que lhe foram passadas apenas se a sociedade lhe mostrar, por meio de leis e da educação, que essas certezas são questionáveis.

 
Essas leis e essa educação precisam ser mais fortes do que os ensinamentos da sua família, pois há a possibilidade de ela questionar se o mundo está errado enquanto sua querida família está certa.


Desapegar-se dessas influências familiares é um desafio, mas é crucial para o crescimento pessoal e para a construção de uma visão de mundo mais justa e equilibrada.


Segundo o psicólogo e pesquisador Murray Bowen, criador da Teoria dos Sistemas Familiares, a família é um sistema emocional interdependente, onde os membros influenciam mutuamente seus comportamentos e emoções. Ele introduziu o conceito de “diferenciação do self”, que é a capacidade de uma pessoa se separar emocionalmente da sua família de origem enquanto mantém relacionamentos saudáveis.


Bowen (1978) argumenta que indivíduos com baixa diferenciação têm dificuldades em manter uma identidade separada de sua família de origem, o que pode dificultar o processo de desapego das influências familiares. Esse conceito é crucial para entender como as crenças e padrões familiares podem perpetuar comportamentos e pensamentos tóxicos, muitas vezes sem que os indivíduos percebam.


Ou seja, nós nascemos acreditando que nossos pais e nossas mães são pessoas ideais, que são perfeitas e nas quais nós nos espelhamos, desejando ser como eles quando crescermos.

 
Porém, na adolescência, começamos a ter alguns embates com eles e entramos na nossa fase rebelde. Durante essa fase, questionamos o que eles nos ensinam e acreditamos que a nossa maneira de ver o mundo é melhor. Essa desilusão em relação à imagem de pais perfeitos é um processo comum, mas geralmente, após essas descobertas e ao encontrarmos nossos próprios caminhos, é normal restabelecermos uma relação harmoniosa com os pais.


No entanto, se durante essa fase rebelde, ou mesmo na fase adulta, descobrimos que nossos pais são pessoas das quais não nos orgulhamos, existe uma grande possibilidade de distanciamento. Se os nossos valores após a fase adulta não mais coincidem com os valores dos nossos pais, pode ocorrer um corte permanente dos laços.

 
Por exemplo, a polarização política recente no Brasil tem causado divisões familiares significativas. Um estudo do Instituto Datafolha (2018) revelou que 39% dos brasileiros deixaram de falar com amigos ou familiares devido a divergências políticas, evidenciando como diferenças ideológicas podem impactar profundamente os relacionamentos familiares.


Esse fenômeno não é necessariamente negativo. Manter uma relação próxima com uma família cujos valores divergem radicalmente dos nossos pode se tornar um fardo insustentável ao longo da vida.

 
A psicóloga Harriet Lerner, em seu livro “The Dance of Anger” (1985), argumenta que o distanciamento pode ser uma forma saudável de autopreservação e crescimento emocional. Quando os valores familiares entram em conflito com nossos próprios princípios e crenças, cortar os laços pode ser uma decisão necessária para preservar a integridade e o bem-estar pessoal. Dessa forma, o distanciamento não deve ser visto apenas como uma perda, mas também como uma oportunidade para reafirmar nossos valores e seguir um caminho mais autêntico.


Descobrimos que a família é composta pelas pessoas que escolhemos ter ao nosso lado, não necessariamente por laços consanguíneos. Podemos ter laços muito mais fortes com amigos do que com nossos próprios pais ou mães.
Existem pais que desaparecem, abandonam seus filhos e vão viver suas vidas como se eles nunca tivessem existido. Alguns pagam pensão, outros simplesmente somem e nunca mais são localizados. Esses pais não representam laços familiares dos quais devemos nos orgulhar. Se um pai assim retorna depois de muitos anos, já idoso e arrependido de seus atos, incluindo ter abandonado o filho, surge a difícil questão: vale a pena perdoá-lo? Seria justo perdoá-lo após tantos anos de sofrimento causados por sua ausência?


Essas são questões que muitas vezes nossas famílias de origem dizem que devemos responder afirmativamente, afinal, “ele é seu pai”, “ele é seu genitor”. Essas desculpas são apresentadas como algo que não deveríamos questionar. No entanto, esses questionamentos são essenciais, pois nos colocam de frente com nossos valores e crenças.

 
Eles nos fazem perceber que as pessoas são mutáveis e imperfeitas, independentemente de serem nossos pais, mães ou irmãos. Confrontar esses valores e decidir por nós mesmos é crucial para nosso bem-estar emocional e crescimento pessoal.


Ouvi uma história sobre uma mãe que vivia um luto profundo pela morte de sua filha mais nova, irmã de Renata, que faleceu quando tinha 5 anos e Renata tinha 7. Durante toda a vida da filha sobrevivente, sua mãe dizia que quem deveria ter morrido era ela, não a irmãzinha.

 
A mãe sempre dizia que a filha falecida teria sido melhor em tudo, inclusive nos estudos. Esse comportamento da mãe fez com que Renata sofresse imensamente, sentindo-se sempre inadequada e invisível aos olhos maternos. Mesmo ao se casar e ter filhos, a mãe continuava a compará-la desfavoravelmente com a irmã falecida, chegando a pensar, durante o casamento de Renata, que a irmã teria sido mais bonita de noiva.

 
Essa constante desvalorização levou Renata a questionar se não deveria cortar definitivamente os laços com a mãe, mudar de cidade ou país, e nunca mais ligar para ela. A cada conversa com a mãe, Renata ficava extremamente triste e chateada, sempre sentindo-se como uma filha de segunda categoria. A possibilidade de fazer terapia era sempre recusada pela mãe.


Renata se encontrava em um dilema profundo: deveria continuar se relacionando com a mãe, mesmo que isso significasse uma vida de depressão, terapia e medicamentos, simplesmente porque era sua mãe? Ou seria mais justo com ela mesma e sua felicidade abrir mão desse relacionamento tóxico, ainda que fosse vista como egoísta por isso?

 
Esse questionamento a confrontava com seus próprios valores e limites. Ela se perguntava se era possível tolerar uma vida inteira de abusos apenas para manter a mãe por perto, ou se havia chegado a um ponto onde desapegar dessa relação seria mais libertador, proporcionando um ambiente mais saudável para seus próprios filhos, que mereciam ver uma mãe feliz e realizada, mesmo que isso significasse a ausência da avó.


Outro exemplo, uma pessoa que nasceu em uma família muito religiosa. Alguns grupos têm uma raiz muito forte que diz que a mulher deve ser submissa ao homem. E as mulheres desse núcleo não conseguem sair desse pensamento sem serem expulsas por seus líderes religiosos, por seus colegas. Eles não aceitam que outras pessoas os questionem.


O famoso caso de Tom Cruise, que parou de falar com sua filha Suri por mais de 14 anos, simplesmente porque ela não faz parte da religião do ator, a Cientologia. Dessa forma, torna-se muito mais complicado sair dessa linha de raciocínio do que deixar para trás algo que foi aprendido ao longo da vida.


Assim como em relacionamentos amorosos, livrar-se da família não é fácil. Muitas vezes, precisamos morar com eles por não termos condições financeiras de morar sozinhos. Muitas vezes, necessitamos de um apoio financeiro para pagar nossos estudos ou algumas contas.

 
Frequentemente, precisamos dessas pessoas para pegar nossos filhos na escola enquanto estamos trabalhando. Sim, precisamos nos submeter a certas relações sociais para um bem maior. A relação de custo-benefício, onde você tira de você, do seu conforto, e onde você ganha por outro lado, precisa estar equilibrada para que valha a pena e para que você consiga fazer essa troca de maneira equilibrada e sadia.


Voltando a Bauman e seu livro “Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos” onde ele ressalta que as pessoas são levadas a manter relações que muitas vezes são mais utilitárias do que baseadas em uma conexão emocional profunda.

 
No contexto familiar, isso significa que, mesmo em uma família tóxica, os indivíduos podem optar por permanecer devido à necessidade prática, como suporte financeiro ou ajuda com as responsabilidades diárias.


Pesquisas em psicologia também abordam essa dinâmica. De acordo com estudos sobre resiliência familiar, como os conduzidos por Froma Walsh, uma psicoterapeuta familiar americana, a capacidade de um indivíduo de equilibrar os aspectos negativos e positivos das relações familiares pode determinar a saúde mental e o bem-estar geral. Walsh argumenta que, embora as relações tóxicas possam ser prejudiciais, a presença de benefícios tangíveis e a capacidade de desenvolver estratégias de enfrentamento podem ajudar os indivíduos a lidar melhor com a situação.


Dessa forma, é essencial avaliar constantemente essa relação de custo-benefício. Identificar o que se perde em termos de saúde mental e emocional e o que se ganha em termos de apoio prático é crucial para manter um equilíbrio que permita suportar, de maneira saudável, as dificuldades de uma convivência familiar tóxica.

 
A decisão de permanecer em uma situação difícil deve ser baseada em uma análise consciente dos ganhos e perdas, sempre buscando formas de minimizar o impacto negativo no bem-estar pessoal.


Encerrando o capítulo, é importante considerar o desapego em situações insuportáveis dentro da família, destacando a necessidade de compreensão e empatia em determinadas circunstâncias.

 
Por exemplo, lidar com pais idosos que mantêm opiniões políticas ou comportamentais inflexíveis. Em vez de confrontá-los diretamente, podemos optar por entender que essas posturas são resultado de uma criação e de influências passadas, o que nos leva a questionar se vale a pena entrar em discussões infrutíferas.

 
Às vezes, deixar para lá é a melhor abordagem.


Pense nessas 5 atitudes para manter uma relação saudável com a família:
1. Comunicação aberta e honesta: Promover um ambiente onde todos se sintam à vontade para expressar seus sentimentos e opiniões sem julgamento.
2. Respeito mútuo: Reconhecer as diferenças individuais e respeitar as escolhas e crenças de cada membro da família.


3. Estabelecimento de limites saudáveis: Definir limites claros e respeitosos para proteger o bem-estar emocional de todos os envolvidos.


4. Prática do perdão: Capacidade de perdoar e deixar de lado ressentimentos passados para construir relacionamentos mais positivos.


5. Cultivo de momentos de qualidade: Investir tempo em atividades familiares que promovam o vínculo afetivo e fortaleçam os laços familiares.


Sinais que talvez seja melhor cortar laços incluem:
1. Abuso físico, emocional ou verbal recorrente.
2. Falta de respeito contínua aos limites estabelecidos.
3. Comportamentos tóxicos que afetam negativamente o bem-estar emocional.
4. Incapacidade de estabelecer uma comunicação saudável e resolver conflitos de forma construtiva.
5. Percepção de que a relação traz mais sofrimento do que benefícios e não há perspectiva de mudança.


O motivo de ter começado esse livro falando sobre o Desapego do Consumo foi justamente porque o Desapego da Família é um capítulo difícil e espinhoso, onde nossa cultura pode ser uma grande barreira para quebrar um ciclo que não faz sentido.

An artistic projection of a person surrounded by shadows indoors, symbolizing mental health struggles.

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