Estamos em uma fase bastante curiosa. Estou inserida na geração millennial, ou geração Y, e, segundo os recrutadores de RH, somos uma geração de múltiplos talentos, criativos, com uma boa autoestima que foi resultado direto de nascer e crescer em um mundo sem grandes conflitos (guerras mundiais e nações com grandes problemas econômicos).
Ouvimos desde pequenos que somos inteligentes (ao menos em comparação com as gerações anteriores, que raramente tiveram a oportunidade de estudar) e que faremos carreiras maravilhosas, sendo financeiramente recompensados por isso. Logo, em nossos cérebros infantis, já nos imaginamos sendo verdadeiros Willy Wonka na fase adulta.
As pessoas das gerações anteriores até teriam razão, tínhamos sim grandes oportunidades se o mundo tivesse se mantido fixo na história, com as mesmas necessidades, a mesma mentalidade e os mesmos padrões. Eles acreditavam que cresceríamos, faríamos faculdade, entraríamos em uma grande empresa e lá ficaríamos até nos aposentar com honras pelo serviço prestado.
Mas o mundo não ficou congelado no tempo e, assim como Bauman muito bem descreveu, não estamos em um mundo sólido, mas líquido, que exige outra forma de pensamento e adaptabilidade, além de compreender que nada é permanente. Isso inclui nós mesmos, nossas opiniões, nossa maneira de trabalhar e nossas relações pessoais. Para quem foi criado na lógica da estabilidade, isso pode ser enlouquecedor. Imagine que a única coisa certa é a impermanência?
Penso que crescemos com esse senso de importância que nos foi dado (ou que criamos a partir de muitas referências midiáticas). Nossos pensamentos são importantes – podem mudar o mundo –, nossos sentimentos não devem ser ocultados. Somos únicos no mundo. E enquanto somos inflados constantemente com esses argumentos egocêntricos, a única coisa que realmente parece nos dar verdadeira importância no mundo é nosso poder de compra.
Sim, como já disse meu professor Luiz Felipe Pondé em seu livro “Filosofia para Corajosos”, a única coisa inaceitável hoje é não pagar a fatura do cartão de crédito.
Você é seu score, seu nível no Serasa. Talvez lá em terceiro ou quarto lugar você seja suas opiniões e sentimentos. Se duvida, te desafio a ir ao banco e vender seus sonhos para serem financiados sem nenhuma garantia de real valor monetário.
Imagine que você ouviu de toda a sua família que cozinha super bem, que poderia abrir um restaurante e fazer muito dinheiro com seus pratos. Seus amigos parecem incentivar a ideia, afinal, estão todos os fins de semana na sua casa degustando suas criações. Até que você resolve investigar quanto custaria abrir um restaurante com pelo menos seis funcionários. A menos que tenha crescido em uma família que tenha condições financeiras admiráveis, presumo que os valores do seu sonho sejam um obstáculo.
Temporariamente desmotivado, você comenta com alguém sobre a impossibilidade de abrir seu restaurante e eis que a pessoa te diz para pegar um empréstimo no banco, com juros diluídos em muitos anos para que você possa incluir as parcelas nas despesas fixas do negócio. Com essa nova esperança, você vai até o banco. Lá te questionam o que pode dar como garantia. Tem casa? Tem carro? Tem pensão? Se sua resposta é não, acredite, não importa se você tem o dom de Remy (o ratinho do filme Ratatouille), você será só mais uma pessoa à qual os gerentes não terão certeza se honrará sua dívida.
Talvez seja nesse momento que começamos a perder o brilho no olhar. Todos os comentários sobre seu talento soam como nada mais do que um dolorido elogio sobre algo que poderia ter sido real. Uma promessa que nunca se concretizou.
Como se levantar depois de uma queda dessas? Existem pessoas que recorrem a amigos e até agiotas. Tem aquelas que diminuem o sonho de proporção (para quê seis funcionários se eu posso ter uma barraquinha ao lado do ponto de ônibus?), começando pequeno e acreditando que vão crescer. Amém a eles.
Existem também aqueles que colocam o sonho ‘on hold’ (faço parte desse time, como expliquei na introdução). A pegadinha do ‘on hold’ é acreditar que você permanecerá com esse sonho por tempo suficiente para voltar a ele com a mesma energia de antes de engavetá-lo. Esse período para trabalhar em outra coisa até juntar uma grana para retomar o plano inicial pode se estender indeterminadamente, principalmente porque a vida acontece nesse período: pode querer comprar um carro, podem aumentar o aluguel, a economia do país pode dificultar os investimentos e a cesta básica pode ficar mais cara. Isso sem comentar a possibilidade de aparecerem cônjuges e filhos no meio do caminho.
O plano B pode se tornar o Plano A e o sonho ‘on hold’ pode começar a ser chamado de hobby.
As redes sociais parecem nos bombardear de pessoas felizes. Elas são as maiores fofoqueiras da atualidade. Nelas você descobre que aquele colega sem sal do ensino médio se tornou um grande investidor e vive viajando à Europa. Lá você vê seus colegas de trabalho sorrindo felizes com suas famílias, em bares e restaurantes caros. Não tem salários parecidos? Como eles conseguem pagar por essas extravagâncias enquanto você está contando moedas?
A comparação é o pecado da vez. Percebi que nada destrói mais minha autoestima do que ficar cinco minutos no Instagram. E veja que não sigo influenciadoras de moda ou atrizes famosas. Sigo pintores e desenhistas. Me pego invejando o traço alheio em vez de aprimorar o meu. Invejo a quantidade de curtidas, views e seguidores. A organização bem-feita de um feed é tão deliciosa de ver quanto uma vitrine de uma pâtisserie.
Todos os nossos sentidos estão sendo disputados a tapa. Devemos consumir e demonstrar que podemos consumir. Selfie e post. Nos tornamos tão concorridos pelo marketing das empresas que – veja só – até parece que somos mesmo importantes, como diziam nossos pais. Chegam ao absurdo de comprar nossos dados, mapear nosso comportamento digital para que, no momento exato, a propaganda ideal apareça com mais chances de efetivar uma compra.
Nesse redemoinho de consumismo, não temos mais tempo para o silêncio, para uma leitura ou para uma conversa mais longa, regada a bons vinhos e poucos iPhones. Nossa essência é perdida e nos tornamos apenas consumidores e pagadores de fatura.
E se você se atreve a ser forte, a se manter longe das redes sociais (imagine alguém sem Instagram hoje com menos de 60 anos!), você corre o risco de não ter oportunidades no mercado de trabalho. Sim, eles olham suas redes no momento da contratação, anotam suas opiniões. Se você é um empreendedor (também conhecido como o dono da lojinha da esquina, só que gourmetizado), você corre o risco de não ter clientela sem postar uma foto profissional dos seus produtos uma vez por dia.
A questão é que na época em que éramos crianças e ouvíamos que nossos sonhos se concretizariam, que seríamos ricos e felizes, nossa vida não dependia de máscaras sociais tão plásticas.
As máscaras sociais sempre existiram. Toda esposa que abre um sorriso ao marido que não ajuda a lavar a louça depois de ambos terem uma jornada exaustiva sabe do que estou falando. Seja para manter os filhos, o teto ou o casamento, essa esposa dominou a arte de mentir para criar um ambiente de falsa alegria para aparentar normalidade aos vizinhos, à família ou a seja lá quem for.
Eu não aguentei viver essa mentira. Não consigo ter um emprego fixo por mais de um ano, pois sinto que estou perdendo tempo de vida não trabalhando em meus sonhos, mas ao mesmo tempo, meus sonhos precisam de certa plasticidade virtual para serem vendidos. Ainda não vivo de fotossíntese, infelizmente.
Isso me levou a uma jornada em que precisei aprender a suportar essa mentira. O burnout, a ansiedade social, as obrigações de mãe que conflitam com meus sonhos e toda a falácia de felicidade me fez buscar mais uma formação (dessa vez, em Filosofia) e uma pesquisa por terapias que pudessem – de maneira ‘mágica’, como as vendem – me dar uma resposta.
Aqui te dou um spoiler dos próximos capítulos: elas funcionam em partes. Porque todo caminho serve para quem não sabe onde quer chegar.
