O Poder do Desapego – Não se deixe Influenciar

Pessoas sempre estão ocupadas por não suportarem seu próprio silêncio.

A Nossa Era

Estamos em 2024. Neste ano, o leitor está imerso em uma miríade de redes sociais, provavelmente participando ativamente de pelo menos duas delas, independentemente da idade. É possível que nem perceba o quanto suas opiniões e preferências são moldadas e influenciadas por uma série de postagens, que vão desde os comentários dos amigos até as mais sutis publicidades das celebridades que acompanha.

Para entendermos melhor o contexto contemporâneo, vale ressaltar que estamos recentemente saindo da pandemia de Covid-19, que ceifou a vida de cerca de 700 mil brasileiros até o momento. Durante esse período, experimentamos o receio de sair de casa, o temor do contato físico. Adaptamo-nos a uma nova dinâmica de vida, aprendendo a trabalhar em home office e a conviver com o medo e a incerteza.

Muitas pessoas se viram obrigadas a compartilhar espaços reduzidos com diversos membros da família, enfrentando o caos provocado pela sobreposição de atividades como trabalho e estudo em um mesmo ambiente. Esse cenário levou muitos a ansiarem por residências maiores, distantes do tumulto, onde pudessem desfrutar de um pouco mais de tranquilidade e privacidade. Outros optaram pelo isolamento, alugando até mesmo apartamentos menores próximos aos seus locais de trabalho, buscando proteger-se do vírus ou evitar contaminar seus entes queridos.

Essas mudanças na dinâmica familiar e no ambiente de trabalho suscitaram questionamentos sobre o modo como vivíamos anteriormente. O trânsito, os horários de pico e até mesmo os hábitos alimentares sofreram alterações significativas. Observou-se, por exemplo, um aumento na demanda por serviços de delivery, tornando mais rentável para muitos trabalhadores do ramo de restaurantes a entrega em domicílio do que o atendimento presencial.

Além disso, proprietários de escritórios espaçosos, localizados em áreas nobres da cidade e que antes arcavam com aluguéis vultosos, perceberam que concedendo dias de home office aos seus funcionários poderiam reduzir o tamanho do espaço locado, aumentando suas receitas ao diminuir suas despesas.
Os trabalhadores – nós, pessoas comuns – logo percebemos que o home office nos proporcionava uma produtividade equiparável, se não superior, àquela alcançada no ambiente de trabalho convencional. Além disso, economizávamos um tempo precioso que antes era consumido pelos deslocamentos diários. Em uma cidade como São Paulo, onde o tempo médio de deslocamento pré-pandemia era de duas horas, a normalização desses longos períodos no trânsito tornou-se algo intolerável.

Com a descoberta dessa alternativa, ganhávamos pelo menos quatro horas de nosso dia ao permanecer em casa. Essa mudança representou uma melhora significativa em nossa qualidade de vida, permitindo-nos desfrutar de refeições caseiras durante o almoço sem desviar da dieta, bem como dedicar mais tempo à família e aos filhos.

Gradualmente, começamos a questionar a lógica da demanda excessiva de trabalho imposta pelas empresas. Muitos de nós enfrentamos reduções salariais e tivemos que nos adaptar a essa nova realidade. Contudo, os benefícios do home office em termos de paz de espírito, saúde mental e produtividade nos fizeram perceber que nossa tranquilidade é mais valiosa do que qualquer outra coisa.
Ao retornarmos à dinâmica anterior, nos vemos confrontados com situações que agora nos causam desconforto. Reviramos os olhos diante de exigências absurdas de horas extras, reuniões fora do horário e a subjugação de nossos hobbies em prol do trabalho. Com menos paciência, compreendemos que não podemos nos submeter à lógica de viver para trabalhar, mas sim trabalhar para viver.

Isso nos leva a questionar o papel da sociedade de consumo nesse contexto. Após o término da pandemia, testemunhamos uma onda de demissões à medida que as empresas insistiam no retorno integral aos escritórios. Surgiram termos como “demissão voluntária” e “quiet-quitting”.

Atualmente, observamos uma crescente demanda por trabalho remoto e híbrido, enquanto a procura por empregos que exijam a presença integral no escritório diminui significativamente, conforme aponta o LinkedIn.

Embora ainda existam líderes empresariais que defendam a ideia de que é preciso trabalhar enquanto “eles” dormem para alcançar o sucesso, percebemos que essa mentalidade apenas nos conduzirá ao esgotamento precoce.

O fundamental não é trabalhar enquanto outros descansam, mas sim viver verdadeiramente e ter os recursos necessários para conduzir nossa vida conforme bem entendermos. Não desejamos nos submeter ao estresse constante, sacrificar momentos preciosos com nossos filhos, abandonar nossos hobbies ou comprometer nossa saúde em nome do trabalho. Isso não é o que buscamos.

Em contraponto à descoberta de uma melhor qualidade de vida, surge a pressão do mercado. O mercado nos exige mais esforço, mais dedicação, sob a premissa de que só somos considerados pessoas de valor social se possuirmos determinados bens materiais – um iPhone, um carro, uma casa em um bairro de prestígio – e frequentarmos lugares caros com amigos.

Assim, temos o embate entre o desejo de uma vida mais plena e tranquila e a pressão do consumismo, alimentada pela publicidade e pelo marketing, que nos instigam a desejar cada vez mais, levando-nos a gastar com coisas que talvez não contribuam tanto para nossa qualidade de vida, mas que nos ajudem a nos encaixar em um determinado status social ou grupo de aspiração.

Na terapia frequentemente nos deparamos com a constatação de que viver não é fácil. Desde cedo, somos alimentados com ideias grandiosas por nossos pais, que depositam em nós expectativas muitas vezes irrealistas. Isso gera uma ansiedade para corresponder e provar nosso valor, especialmente quando há investimentos financeiros significativos envolvidos, como cursos e faculdades.
Precisamos fazer escolhas que podemos lidar.

Por exemplo, se temos um chefe exigente que nos faz trabalhar longas horas e permanecer disponíveis nos fins de semana, podemos nos ver em uma situação de assédio, mesmo que não reconheçamos isso de imediato. Muitas vezes, o medo de perder o emprego nos impede de tomar medidas contra essa situação.

Você lembra que lutou arduamente por anos para alcançar a posição de supervisor, conquistando um salário um pouco melhor e até mesmo reservando uma parcela para uma viagem à Disney com seu filho, algo que ele sempre sonhou. Porém, agora você se vê diante de um dilema: continuar nessa jornada, suportando um ambiente de trabalho desgastante para garantir os desejos do seu filho, ou considerar outras opções que possam oferecer uma vida menos estressante, mesmo que isso signifique abrir mão da viagem dos sonhos.

Você consegue lidar com longas jornadas de trabalho e ter menos tempo com a família? Ou prefere ter menos dinheiro e mais tempo com a família? Qual é a escolha menos pesada?

É hora de refletir sobre o que realmente importa e o que causa menos dor. Talvez seja mais viável buscar um novo emprego que pague um pouco menos, mas que proporcione um ambiente de trabalho mais saudável, permitindo-lhe desfrutar de momentos preciosos com seu filho em outros lugares. Ou talvez a alternativa seja permanecer onde está e aprender a lidar com as dificuldades do dia a dia, em prol de realizar o desejo da sua prole.

O cerne da questão é aprender a desapegar daquilo que nos causa sofrimento constante. Essa jornada de desapego não é fácil, mas é essencial para preservar nossa saúde mental e emocional e cultivar uma vida mais equilibrada e gratificante.

Outro exemplo: Imagine-se dirigindo pela estrada, respeitando todas as regras de trânsito e mantendo-se dentro dos limites de velocidade. Você está na pista do meio, deixando a faixa da esquerda livre para ultrapassagens, como previsto pelas normas de tráfego.

Entretanto, surge um motorista atrás de você, que claramente está em alta velocidade e quer ultrapassá-lo a todo custo. Ele pressiona, buzina, e eventualmente você opta por deixá-lo passar. Observa-o se afastar, desaparecendo no horizonte, com o som do motor chamando a atenção de todos.
Nesse momento, você sente uma pontada de irritação, pensando em como seria se tivesse um carro tão rápido quanto o dele. Talvez pudesse emparelhar-se com ele e mostrar que também é capaz. No entanto, percebe que esse desejo de vingança é passageiro e não condiz com sua busca por desapego.

Compreende que a raiva é uma emoção transitória e não vale a pena alimentá-la por dias a fio. Decidido a seguir em frente sem se deixar abalar por esses momentos, continua sua jornada com calma, tendo consciência que o apressadinho deva tomar algumas multas enquanto você, que se preparou, saiu mais cedo de casa, vai fazer o seu trajeto sem se arriscar.

Porém, existem aquelas pessoas que ficam ruminando aquele ódio da ultrapassagem por dias e explodem em uma situação trivial como, em um restaurante, alguém passa na frente no buffet e ele fica bravo.

Vamos explorar mais exemplos:

Você está na fila da lotérica para pagar uma conta e uma senhora, aparentemente não tão idosa, mostra seu RG com a data recente de seu aniversário de 60 anos. Ela tem o direito de passar à sua frente, e você sente uma onda de frustração por estar a apenas um mês de completar essa mesma idade e não ter o mesmo privilégio.

É o desejo de fazer justiça por conta própria, de não se sentir inferiorizado, de sempre estar por cima.

Mas como tornar esse desejo uma realidade? O mercado sempre nos sugere que podemos nos destacar tendo algo mais, seja uma blusa mais quente ou mais cara que a do colega, um carro mais novo e potente do que o do outro motorista, ou vantagens como um cartão VIP no supermercado ou o acesso à primeira classe no avião.

A ideia é que essas coisas nos diferenciem da parte da população que consideramos menos privilegiada, que nos coloquem em uma posição de superioridade. Com o tempo, esses itens se tornam quase necessidades, guiados por um falso senso comum: “precisamos ter um plano de saúde porque não podemos confiar no SUS em uma emergência”.

Um carro, por exemplo, pode passar de um simples luxo a uma necessidade, quando consideramos os atrasos constantes nos transportes públicos e as dificuldades de locomoção. E ter um carro de qualidade torna-se essencial para demonstrar poder, como quando alguém tenta nos ultrapassar na estrada.

Essa busca por status e diferenciação é alimentada pela ideia de que precisamos nos destacar e nos proteger de situações desfavoráveis. No entanto, é importante questionar até que ponto essas necessidades são reais e até que ponto estamos simplesmente seguindo as demandas criadas pelo mercado e pela sociedade.
Então, meus queridos, é assim que surgem necessidades que nem sempre são tão necessárias assim.

Você realmente precisa de um carro potente só porque alguém decidiu acelerar e ultrapassar você na estrada? Ou de um cartão VIP de aeroporto só para desfrutar de um pouco mais de conforto em uma poltrona ligeiramente mais espaçosa? São essas as verdadeiras necessidades?

Quando um desejo inflama (geralmente enraizado em uma emoção intensa) é a razão que pode nos trazer de volta ao equilíbrio. Perguntar a si mesmo “Por que eu preciso disso?” pode ser o primeiro passo para resolver um impulso de consumo.
Será que realmente necessito de um carro apenas para ultrapassar alguém? Ou será que minha bunda é tão grande que não cabe em uma poltrona confortável no aeroporto? E quanto ao plano de saúde que cobre os melhores hospitais da cidade, será que realmente é imprescindível quando os mesmos médicos atendem um plano mais acessível?

Deixe-me compartilhar um caso pessoal. Tenho uma filhinha e sempre a levei para consultas no meu plano de saúde. Sua pediatra é a mesma desde seu nascimento. Aos três anos dela, minha mãe perdeu o plano de saúde e decidiu se consultar em uma unidade básica de saúde próxima de casa. Ao chegar lá, ela ficou surpresa ao ver a pediatra que atendia minha filha também trabalhando no SUS.

Os atendimentos são exatamente os mesmos, o que nos fez questionar se realmente valia a pena continuar pagando pelo plano de saúde quando poderíamos ter o mesmo atendimento gratuitamente ao lado de casa.
Nossa, então você está me dizendo que eu não posso desejar coisas melhores?
Não, não é isso.

Existe uma diferença entre desejar conscientemente e desejar impulsivamente. Não estou dizendo que você não pode desejar, mas sim que deve desejar com consciência.

Quantas vezes você entrou em uma loja e comprou uma blusa sem necessidade, apenas porque estava lá? Você achou que iria usá-la, mas quando chegou em casa percebeu que não combinava com nada em seu guarda-roupa. E lá ficou a blusinha, esquecida, gerando a necessidade de comprar uma calça para combinar com ela.

O mesmo vale para aquele hambúrguer suculento que você viu na propaganda. Parecia enorme, com todos os ingredientes perfeitamente dispostos, e você ficou morrendo de vontade. Correu para o restaurante, comprou o hambúrguer, e quando abriu a embalagem, era muito menor e desmontado. Não era o que você esperava, mas você o comeu mesmo assim porque já tinha pago por ele.

O segredo dos desejos está na temperança. É normal desejar algo e querer satisfazer esse desejo, mas é essencial racionalizar antes de agir impulsivamente. Pense se realmente precisa daquilo ou se é apenas um impulso momentâneo. Esse é o caminho para se libertar do bombardeio de coisas que enfrentamos diariamente.

Às vezes, algumas coisas exigem um esforço muito grande para serem alcançadas ou mesmo para serem mantidas. Quando o sofrimento de ter se torna maior que o de perder, é quando encontramos a libertação no Poder do Desapego.
Por isso, estou aqui nesse momento com o intuito de mostrar os bastidores do ciclo dos desejos que a indústria e o sistema nos bombardeia diariamente.
Espero que, com esse livro, você se livre de ser influenciado, pois ninguém compra algo se não tem real interesse.

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