Namastê, p*rra!

Não está fácil sobreviver. Manter uma vida saudável, dormir oito horas por dia e não pirar está cada vez mais desafiador. Ultimamente, a vida em si parece ser um grande trote, com expectativas diariamente frustradas que aos poucos tiram o brilho dos olhos.
Lembro bem de quando era criança. Cada dia era uma coisa diferente. Queria ser atriz, depois veterinária, pintora, cientista e, por último, escolhi ser escritora. Com meus quatro anos, estava preparada para o estrelato. Eu tinha certeza que passaria minha vida adulta dando autógrafos.
Mas a primeira pegadinha foi o nascimento da minha irmã. Loira, com cachinhos angelicais, ela se tornou o centro das atenções da família. “Pare de fazer barulho para não acordar a bebê”, diziam enquanto eu cantava minhas músicas infantis.
Eu não tinha problemas de autoaceitação até que um dia minha mãe contratou um fotógrafo amador. Passei o dia me preparando, escolhendo meus melhores vestidos (em sua maioria de doação), meu batom de criança e peguei algumas flores no canteiro da rua, acreditando que seria interessante para o cenário. Meu coração palpitou ao ver aquela câmera gigantesca, aquela lente que parecia um telescópio, e fiz a melhor pose que poderia.
Foi então que percebi que eu não era a modelo. Do contrário, foi pedido repetidamente para que eu me afastasse, que estava atrapalhando as fotos da minha irmã. Com seis anos de idade, fiz a primeira comparação: quem teria mais chances de sucesso? Ela, com seu sorriso de covinhas, ou eu, com meu cabelo à la Gal Costa e janelinha nos dentes?
Passei a sonhar mais modestamente. Recebia elogios pelas minhas notas, então fiz o possível para me tornar a melhor aluna da sala. Claro que isso não me gerou muitos amigos, mas me convenci que era uma situação contornável, afinal, meus colegas de sala não tinham os mesmos objetivos que eu (minha nossa, eles queriam casar e ter filhos – um absurdo na minha mente de adolescente que almejava ser o oposto dos meus pais!). Eu queria ser uma escritora, desenhista, cineasta. Um dia, ganharia um Oscar e daria muitos autógrafos, pelo menos, era o que secretamente sonhava enquanto me escondia atrás de uma fachada modesta onde eu dizia que apenas queria trabalhar produzindo histórias.
Entrei para a faculdade de cinema. Me especializei em roteiro e filmes de animação. Cheguei a trabalhar em um filme da Walt Disney Pictures e quando imaginei que minha vida na sétima arte estava apenas começando, me deparei com a falta de oportunidades do mercado de trabalho. Ficava inconformada com colegas que julgava sem disciplina sendo escolhidos para trabalhar em produções… enquanto eu, com um excelente currículo, era descartada por falta de network.
Quando a vida adulta debaixo do mesmo teto com meus pais evangélicos extremistas se tornou insuportável, escolhi mudar de carreira. Fiz arquitetura e engenharia, visando apenas os ganhos financeiros. Ouvi diversas vezes que o dinheiro dá o conforto que torna a vida mais tolerável, mesmo meu coração querendo trilhar o caminho da sétima arte.
Decidi que trabalharia com engenharia até conseguir dinheiro suficiente para me sentir segura para voltar ao cinema. Quinze anos depois, sem dinheiro, frustrada com a carreira, de volta à casa dos pais com um divórcio traumático e com uma filha para criar, me arrependendo amargamente desse Plano B.
Fiz exatamente tudo o que não queria ter feito.
Nesse ponto, meu caro leitor, imagino que você deva estar repensando seus próprios passos e lembrando de momentos em que seus planos não ocorreram de acordo com o roteiro que escreveu para sua própria vida. Se você sabe exatamente onde errou e onde cedeu aos caprichos de terceiros que fizeram escolhas por você, parabéns. Você é um dos poucos que tem esse conhecimento.
Se escolheu este livro, é porque você também já ouviu que sua felicidade vem de dentro, que você é responsável por seus sentimentos, que você atrai aquilo que vibra e possivelmente já tentou meditar, falhando miseravelmente.
Até o momento em que me vi escapando apenas com a roupa do corpo de um casamento tóxico, levando uma bebê e mais dívidas do que poderia pagar em anos, eu me considerava atéia. Aliás, não sou um exemplo de praticante de religião alguma, ainda tenho aquela voz que desdenha de tudo o que parece ser ‘milagroso’ ecoando em minha cabeça. O que me atraiu para essas terapias de ‘cura da alma’ – se é que podemos chamá-las assim – foi um comentário de uma amiga: a fé serve para deixar nossa vida mais leve.
Leveza, mais do que felicidade, foi a melhor propaganda que ouvi para buscar algo que pudesse fazer tudo o que eu vivi ter o mínimo de sentido. Acontece que ouvimos muito falar em relacionamentos abusivos e muitas pessoas estão efetivamente dispostas a ajudar mulheres a se libertarem de suas prisões mentais para deixar a dependencia (seja ela qual for) que a faz se manter ao lado de seu abusador. Eu tive muita sorte de ter tido um terapeuta que foi direto e me perguntou se eu pensava estar em um relacionamento abusivo com o pai da minha filha. Na hora eu neguei. Dez minutos depois eu estava considerando a possibilidade. Ao final da sessão, eu tinha certeza que estava presa em uma teia de abusos que me deixou envergonhada de não ter visto aquilo antes. Ao enxergar efetivamente o que estava passando pude por um basta na situação. E é justamentamente nesse ponto que mais precisei de ajuda e ninguém estava completamente preparado para me guiar. Quando se sai de um relacionamento abusivo, a vítima está em pedaços. Muitas vezes a parte agressora a afastou de amigos e parentes. Ela não sabe mais quem ela é, o que gosta de fazer ou para onde ir. Eu sei que EU me vi completamente sozinha e perdida. Sem forças e com uma pilha de demandas que não me permitiram tempo de sentar e refletir sobre qual caminho tomar. Boletos de advogados, processos de guarda, a jornada de trabalho massacrante que não permite momentos de fraqueza emocional. Busquei onde achei que encontraria apoio gratuito: me agarrei em um pingo de fé que me restava.
Iniciei minha busca pela fé, claro, na igreja evangélica dos meus pais, que rapidamente se mostrou um erro. Minha mentalidade feminista não era compatível com a submissão que os pastores pregavam e não faria o menor sentido continuar frequentando um local que chamava a Teoria da Evolução de obra do demônio. Darwin tinha meu respeito, o pastor, não.
Minha segunda tentativa foi quando encontrei as terapias holísticas pela primeira vez. Uma colega me indicou Reiki, pois eu estava com crises de ansiedade. A terapeuta que me atendeu me perguntou se eu aceitaria uma leitura dos chakras com realinhamento onde precisasse, através do tal Reiki.
Eu nunca tinha ouvido falar em chakras, reiki ou cura com imposição de mãos. Não falei nada sobre minha vida, e a terapeuta me disse coisas que me impressionaram. Como assim ela leu minhas ‘energias’? Meu ‘campo áurico’? Saí de lá me sentindo mais leve e com vários termos que pesquisei no Google nas semanas seguintes.
Li Kardec, fui a um centro espírita, voltei ao Reiki, me falaram sobre a Umbanda, me matriculei em um curso de Teologia de Umbanda para não passar vergonha (o que afinal é um Orixá?), consegui ir a uma gira e tive uma conversa bastante agradável com uma entidade preto velho.
Foi uma espiral de descobertas espirituais e culturais muito enriquecedoras. Com a arte em meu sangue desde muito pequena, fiquei encantada com a riqueza de detalhes, de objetos, de cores, de músicas. A filosofia de ajudar o próximo, fazer caridade e ser essencialmente bom no dia a dia fez muito mais sentido.
Em paralelo, busquei a disciplina e a meditação. A superação de si mesmo a cada dia também me atraíu bastante. Quando percebi, já tinha comprado um Tarô de Osho e tinha me matriculado em uma vivência de Tarô Terapêutico, um curso de Baralho Cigano e estava com sessões mensais de ThetaHealing, além de sessões quinzenais de terapia.
Gostaria de dizer, meu querido leitor, que este é um livro com o caminho para a iluminação, a aceitação e liberação de todos os seus problemas, com um passo a passo didático do meu próprio processo para que você aplique em sua vida.
Lamento.
O nome do Livro é “Namastê, Porra!” por um motivo.

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