A montanha do Objetivo

O planejamento é de extrema importância. Não estou falando apenas de um planejamento financeiro, onde você tem uma planilha com seus investimentos listados e uma previsão do quanto terá na poupança nos próximos cinco anos.
O planejamento que proponho é muito mais amplo. É sentar e refletir sobre quem você quer ser em cinco anos, em dez, em vinte. Um Roadmap para a vida.


Para alcançar nossos objetivos, precisamos dedicar tempo e disponibilidade. É necessário foco e determinação para visualizar quem queremos ser daqui a cinco anos.

 
Podemos almejar permanecer na mesma empresa, formar uma família, ou até mesmo adotar um estilo de vida nômade. Faça uma lista detalhada de tudo que deseja realizar nesse período, desde questões financeiras até relacionamentos pessoais. Os planos para curto prazo devem ser específicos, enquanto os de longo prazo podem ser mais amplos e flexíveis.

 
Estabelecer um objetivo final, como um ponto de chegada em nosso “GPS” da vida, nos ajuda a orientar nossas ações. É natural que ao longo dos anos, nossos objetivos evoluam e mudem. Por isso, devemos estar abertos a ajustar nossa rota conforme necessário, pois nada é fixo. Essa compreensão nos permite adaptar nossos planos e aspirações à medida que amadurecemos e nossa jornada se transforma.


Ao nos prepararmos para escalar uma montanha, traçamos um mapa da rota e preparamos nossa mochila com tudo o que podemos precisar. Escolhemos os melhores equipamentos, os melhores tênis, as roupas mais adequadas. Durante a jornada, podemos perceber que alguns itens não foram necessários, como a barraca ou a picareta. Mesmo assim, estamos prontos para utilizá-los se necessário, mas não há problema em não precisar deles. O importante é manter o foco no objetivo final: alcançar o topo da montanha.


Por quê? Porque é comum encontrar pessoas que sugerem caminhos diferentes durante a escalada. Às vezes, você pode se ver descendo, em vez de subir, seguindo uma ideia que não estava em sua rota original. Mas se seu objetivo é subir a montanha. Por que você estaria descendo? Simplesmente porque alguém sugere que esse caminho seja melhor? É importante saber qual é o seu objetivo final para não se desviar do caminho certo, não cair em armadilhas sugeridas por outras pessoas e evitar situações que não fazem sentido para você.


Como falamos no capítulo anterior, vivemos em um mundo liquido, então vamos nos preparar para imprevistos durante a nossa jornada. Podemos mudar de opinião, querer outros objetivos e talvez, aquele caminho que traçamos possa não ser o que mais nos agrada.

 
Nós mudamos e as circunstancias mudam, mas o objetivo sempre é o mesmo.
Aqui vou compartilhar um exemplo pessoal. Desde sempre soube que queria trabalhar com arte: ser escritora, cineasta, desenhista, trabalhar com filmes de animação. Durante minha adolescência, foquei intensamente nesse objetivo e aos 23 anos alcancei parte dele. Cursei faculdade de cinema, tornei-me escritora, roteirista e aprendi a fazer desenhos animados. Então, quando menos esperava, surgiu uma oportunidade: um trabalho freelancer em um filme da Disney.
Em 2009, desenhei 15 minutos do filme “A Princesa e o Sapo”. Fiquei extremamente feliz e senti que aquilo era o meu topo da montanha.

 
No entanto, percebi que não era o cume, apenas uma parte mais alta. Não enxergava o verdadeiro topo adiante. Imaginando que havia alcançado o ápice, fiquei desesperada ao perceber que não havia para onde ir depois daquele ponto. Não havia estabelecido contatos sólidos na indústria do cinema, e o pouco trabalho que conseguia não era suficiente para pagar as contas.

 
Decidi focar no segundo degrau da minha escada: o básico; nas contas a pagar, e acabei ingressando em uma segunda faculdade, de arquitetura.


Durante uma década, me vi imersa em obras, arquitetura e engenharia, fazendo cálculos e vivendo uma extrema tristeza. Foram os piores anos da minha vida, marcados por um burnout, tremedeiras e a constatação de que meu olho piscava involuntariamente quando ficava nervosa. Após esse desvio, enfrentando obstáculos, percebi que permanecer naquela profissão por mais vinte anos seria uma sentença de infelicidade.

 
Então, retomei a escrita, ingressei em um curso de teatro para me reconectar com a arte, e o mundo se abriu para mim. A alegria retornou, a vontade de viver ressurgiu, simplesmente porque reajustei minha rota em direção ao meu verdadeiro objetivo, ao meu topo da montanha.

 
Agora sei que, independentemente dos desvios, devo continuar ascendendo à minha montanha, rumo àquilo que verdadeiramente me faz feliz: a arte.
Confesso que ao escolher reduzir minha jornada de engenharia, diminui consideravelmente os meus ganhos. Não consigo levar minha filha para a Disney, mas consigo dar carinho e atenção no final do dia. Isso é algo que, trabalhando incessantemente em obras, eu não conseguia proporcionar: um dia a dia mais leve e divertido.

 
Foi uma escolha que fiz: preferi ganhar menos e ser mais feliz.


É claro que, quando decidi seguir aquele caminho há 10 anos, não sabia que ele me levaria à tristeza, pois ainda não conhecia aquela rota. Entretanto, minha intuição sussurrava que aquele caminho seria doloroso, que me afastaria do que realmente gosto.

 
Foi somente após o burnout que constatei que aquela estrada não era para mim. Meu planejamento atual é o seguinte: em cinco anos, almejo viver da renda gerada por alguns cursos online que estou realizando, principalmente sobre escrita. Também desejo ter uma quantia X na minha poupança, para não precisar me desgastar tanto no trabalho como faço atualmente.


Nos próximos 5 anos, desejo realizar uma viagem internacional, expandindo meus horizontes e vivenciando novas culturas.

 
Já nos próximos 10 anos, meu plano é mais ambicioso: mudar de país para um lugar mais frio, onde o clima seja menos estressante para mim. Imagino-me vivendo na Europa, talvez em Londres, Paris, Irlanda ou Edimburgo, desfrutando de um ambiente mais ameno.

 
E daqui a 20 anos, quando estiver próximo dos 60 anos, almejo me aposentar nesse continente. Embora saiba o que quero alcançar em cada fase, ainda não defini exatamente como farei esse percurso.

 
Entretanto, estou ciente de que, à medida que avanço, as oportunidades se revelarão, e farei as escolhas que me conduzirão com segurança em direção ao meu objetivo final.

 
Então, convido você a refletir: qual rota te levará à felicidade?


Imagine Luana, uma jovem repleta de aspirações e apaixonada pela arte da fotografia. Desde a adolescência, ela nutria o desejo ardente de explorar o mundo através de suas lentes, capturando momentos e compartilhando sua visão única com o universo. Seu plano era claro e definido: nos próximos cinco anos, lançar seu próprio projeto fotográfico e embarcar em uma jornada internacional, onde cada clique seria uma história a ser contada.


Contudo, aos 27 anos, Luana se depara com Pedro, um indivíduo envolvente, cuja presença irradia carisma e promessas de amor eterno. Sob o encanto do romance, Luana se deixa levar pela emoção do momento e decide se unir a Pedro em matrimônio, impulsionada por um desejo repentino de construir uma vida a dois.


O casamento traz consigo uma série de obrigações e compromissos que desviam completamente Luana de seu trajeto original. Ela se vê mergulhada em uma rotina monótona, dedicando-se aos afazeres domésticos e acompanhando de perto a agenda exaustiva de Pedro em sua vida empresarial. Seus sonhos de viajar e fotografar parecem distantes, eclipsados pela nova dinâmica de sua vida conjugal.


À medida que os anos passam, Luana começa a sentir um vazio interior, uma sensação de que algo essencial se perdeu ao longo do caminho. Ela percebe, com pesar, que o casamento por impulso a afastou de seus verdadeiros objetivos e paixões. Agora, aos 35 anos, Luana se encontra em uma encruzilhada existencial, questionando suas escolhas e buscando reencontrar o caminho que a conduzirá de volta à plenitude de seus sonhos e aspirações. O casamento, nem faz mais sentido e ela arrumou apenas outro problema para resolver: um divórcio.


Traçar um objetivo financeiro pode ser crucial para quem está se sentindo perdido ao definir uma rota. Por exemplo, se eu moro com meus pais, pago uma faculdade e tenho um curso de Inglês, meus gastos são mínimos. Nesse caso, um emprego simples que pague em torno de mil e quinhentos reais seria suficiente.
No entanto, se morasse sozinho, tivesse filhos para sustentar e pagasse aluguel, precisaria de um salário mais substancial para cobrir todas as despesas. É importante entender qual é o mínimo necessário para alcançar o salário que me satisfaria.

 
Essa abordagem, contrária ao que geralmente é ensinado na Faria Lima, destaca a importância de fazer o mínimo para garantir tempo e energia para as atividades que realmente impulsionam a vida.


Insisto nessa abordagem porque o sonho de trabalhar muito e intensamente para se tornar milionário e se aposentar com trinta anos é algo vendido para os jovens de hoje. Todos acreditam que com dedicação podem chegar lá. E ‘lá’ é apenas uma maneira de mantê-lo motivado, gerando riqueza para os empresários, enquanto sua realidade não muda.

 
Sempre há mais um curso a fazer, sempre há mais um cargo a subir e o plano de carreira se torna algo tão extenso que aos quarenta, aquele jovem cheio de energia, agora está desmotivado, se perguntando se desperdiçou sua vida.
Desvio de rotas momentâneos são naturais. Desvios que levam anos indicam que alguém está te impedindo de avançar. E esse alguém pode ser você mesmo.

 
A desconexão entre valores pessoais e o trabalho é o que mais desmotiva a geração Y. Exatamente porque parece que eles têm um GPS interno que os guia na rota do topo da montanha sem a ilusão que o mundo corporativo tenta causar. Eles conseguem farejar a pressão e as expectativas irreais de seus recrutadores. Eles entendem que a instabilidade e a insegurança financeira é algo que os impedem de conseguir comprar um imóvel, ou ter salários melhores. O ‘hustle’ ou seja, a produtividade extrema, estar sempre disponível e sacrificar a vida pessoal pelo trabalho é algo que não valorizam.

 
Eles estão mais do que certos! Mesmo que trabalhem muito, nunca serão sócios de seus empregadores. Nunca ganharão como eles. Será que vale a pena todo esse esforço? Será que é mais um desvio na rota da montanha?


Tenho um colega que “percebeu”, no mundo do empreendedorismo, que se fosse até os clientes com um carro de luxo suas possibilidades de fechar um negócio eram maiores. Porém, ele se endividou para manter esse carro, pagar IPVA e garantir a manutenção. Mesmo assinando contratos com os clientes, ele ainda não conseguiu fechar as contas no azul por conta do automóvel.
Existem algumas exigências para “aparentar” ser bem sucedido que trazem apenas mais dor de cabeça.


Nosso autoconhecimento muitas vezes é um processo sutil, quase imperceptível. Temos uma tendência a nos iludir, a nos enganar, a evitar encarar nossas sombras. Às vezes, até nos envergonhamos de buscar reconhecimento pelo nosso trabalho bem-feito e acabamos subvalorizando nossa entrega.

 
Em 2003, ingressei na faculdade de cinema com a intenção de trabalhar com filmes de animação. Porém, ao longo de 20 anos, percebi que minha verdadeira vontade não era estar nos bastidores, mas sim brilhar como uma estrela de cinema, à frente das câmeras.

 
Naquela época, não conseguia admitir isso para mim mesma, pois me via como uma adolescente feia, cheia de imperfeições. Preferi me esconder atrás das câmeras para evitar críticas e julgamentos.

 
Mas após duas décadas, finalmente olhei mais a fundo para minhas verdadeiras aspirações e reconheci meu desejo de destaque, de ser reconhecida e admirada. Após décadas de autonegação, finalmente admiti para mim mesma que queria explorar o mundo do teatro, aprender a atuar e vivenciar a felicidade que essa arte me proporciona. Foi como sair do armário, um alívio, um peso retirado dos ombros, permitindo-me caminhar com mais leveza e autenticidade.

 
O salário mais baixo, nem está sendo lembrado. Trocar Nutella pela geleia em promoção não é algo que me faça arrepender de minhas escolhas.
O que você pode desapegar para deixar sua bagagem mais leve para ir em direção ao topo da sua montanha?

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