O Desapego do Trabalho

Adoraria dizer que sou uma eremita que não precisa de dinheiro para viver. Que sobrevivo de plantas e consigo morar em residências temporárias. Se fosse esse o caso, eu não precisaria trabalhar.

 
Mas preciso.

 
Minha situação era muito mais dramática há dez anos: em 2013, acordava cedo, enfrentava o trânsito e sentava em um escritório das 9h às 19h. Meus primeiros questionamentos (mentalmente, claro) era sobre como que meu contrato dizia que eu estaria fazendo uma jornada de 8 horas diárias sendo que ficava 10 horas no escritório. Tinha uma hora de almoço, o que reduzia para 9 horas, mas ainda ficava muito brava por ‘perder’ uma hora do meu dia trabalhando e sem justificativa. Porém, apesar do desespero mental, sempre mantinha um sorriso no rosto.

 
O sorriso quase sumiu quando descobri que aquele escritório de arquitetura falsificava assinaturas e que estava envolvido em tramoias para reduzir os impostos a serem pagos para a prefeitura.

 
Eu sempre fui muito certinha. Nunca tive uma multa de trânsito. Trabalhar em um local que não tinha os mesmos princípios me tiraram o sono, pois acreditei que a porta da empresa seria derrubada a qualquer momento pela polícia.

 
Foi o começo da minha desilusão com meu plano B, a arquitetura. Talvez meus boletos não valessem minha paz de espírito. Com essa constatação veio a depressão, a ansiedade e uma angústia constante de estar fazendo escolhas erradas na minha vida.

 
Decidi seguir o caminho do empreendedorismo, uma escolha mais alinhada com meu objetivo de alcançar o topo da minha montanha pessoal.

Reorganizei minha agenda e decidi dedicar apenas o período das 8h às 14h a uma atividade que não me trazia satisfação, reservando as tardes, das 14h às 18h, para me dedicar à escrita, à pintura em tela e a investir naquilo que verdadeiramente me inspirava: a arte. Embora meu salário tenha sido consideravelmente reduzido, minha consciência se expandiu como um vulcão em erupção.


Tem uma lição de Epicteto que ressoa com essa situação: “Se almeja tornar-se uma pessoa melhor, deixe de lado os pensamentos do tipo ‘se eu abandonar meus negócios, não terei como sustentar-me’, pois é preferível passar fome a viver com a mente turbulenta.” Aqui, Epicteto nos lembra da importância da ataraxia, ou seja, da tranquilidade da alma, que é vista como o ápice da jornada pessoal.


Para ele a alma é o nosso maior tesouro. Quando algo desagradável ocorre, como derramar leite ou ser vítima de um assalto, antes de se deixar perturbar pelo prejuízo, devemos lembrar que isso é o preço de manter uma mente serena.

 
Se nosso carro for roubado e conseguirmos manter a calma, essa é a verdadeira riqueza, não pelo fato de termos um seguro ou poder comprar outro carro, mas porque nossa paz interior permanece intacta. E se não pudermos substituir o carro, ainda melhor, afinal, quem não o possui não precisa temer tê-lo roubado.
É claro que esse processo não é simples; quando a saúde de um ente querido está em jogo, a paz da alma só retorna quando eles melhoram.


Mas quanto ao trabalho, muitas pessoas repensaram suas jornadas após a pandemia. O chefe que exige uma longa jornada, uma reunião em um sábado ou algo fora do escopo pelo qual você foi contratado começou a se tornar alguém tóxico, que perturba a sua paz.


Mas não caia nas conversas do mundo do empreendedor.


Você já deve ter ouvido aquele ditado: quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro. Essa frase muitas vezes faz com que as pessoas partam para o empreendedorismo sem estarem prontas para a dedicação (muitas vezes maior) que uma jornada de trabalho CLT.


Alexandra é arquiteta e decidiu empreender. Depois de uma temporada decepcionante em um escritório focado em legalizações, percebeu que sua chefe tinha uma maneira de se esquivar dos pagamentos de horas extras: ela fazia uma proposta de um cargo mais alto como supervisora de projetos, aumentando o salário da funcionária em 500,00 e, ao assumir um cargo de confiança, estava fadada a entrar no horário e não ter previsão de sair. Viu colegas entrarem às 8h e saírem às 23h e decidiu tentar uma carreira solo.


Conseguiu clientes e deu conta de atendê-los em home office por mais de um ano, até que as indicações aumentaram e ela não tinha mais tempo para fazer reuniões com os órgãos públicos e desenhar as plantas. Foi quando uma colega, Elis, a procurou para propor uma sociedade: ela faria as reuniões e Alexandra ficaria apenas com a confecção das plantas. Em menos de seis meses, Elis estava cansada. Dizia não aguentar a pressão das reuniões e de atender os clientes com o pouco retorno que estavam tendo. Assim, Elis ficou com os pagamentos dos clientes e abandonou Alexandra com os atendimentos e sem entrada de dinheiro nos próximos meses.


Alexandra foi resiliente e deu continuidade ao trabalho. Já Elis, retornou para o conforto da CLT.


Manuela também entendeu que o empreendedorismo trazia o desafio de atender clientes sem razão (não, clientes não tem sempre razão). Em sua carreira de engenheira, decidiu atender clientes por conta própria após passar por um período na construção civil que lhe gerou inúmeros casos de assédio. Porém, logo percebeu que clientes não respeitavam os horários de atendimento comercial (das 8h às 18h) e, após passar seu número pessoal para todos, percebeu o equívoco: o telefone tocava as 19h, as 20h e até as 4h da madrugada. Ela percebeu que tinha duas opções: voltar para a construção civil e passar por situações vexatórias novamente, ou “ensinar” os clientes que ela só responderia no horário. Assim, comprou um novo celular, um novo número, que o transformou em seu novo contato pessoal, e o número antigo ficou para atendimentos e era desligado pontualmente às 18h e religado às 8h da manhã seguinte.


Julia decidiu que queria ser ‘influencer’ ou ‘youtuber’. Começou a fazer vídeos aleatórios e a postar em todas as redes sociais. Ela falava sobre tudo: maquiagem, maternidade, moda, fofoca de artista e até política. Seu canal não recebia seguidores e ela ficou frustrada. Ao consultar uma empresa de marketing, ouviu que precisaria escolher um único nicho para focar, precisaria trabalhar em uma imagem pessoal, investir em uma boa câmera, fazer roteiros melhores para seus vídeos, postar duas vezes por dia e estar presente durante todo o calendário editorial para responder aos comentários dos seguidores. Era muito mais horas de dedicação do que teria no emprego antigo como caixa de supermercado, mas acreditou em seu potencial e se deu um deadline: se em dois anos não tivesse resultado, voltaria ao emprego antigo.


Alexandra, Elis, Manuela e Julia tiveram seus “pontos de pressão”: aqueles momentos críticos que não conseguiriam lidar, ou continuar suas jornadas se não os resolvessem.

 
Qual é o seu?


Tem alguma situação que seria o limite e que te faria abandonar tudo e recomeçar?


Gosto de reforçar a importância de buscar um trabalho que vá além do simples cumprimento de horários e tarefas. É fundamental encontrar algo que nos preencha verdadeiramente, que nos faça sentir realizados e motivados a cada dia.
Como mencionado anteriormente, muitos jovens se aventuram no mundo das carreiras de ‘influencer’, seduzidos pela ideia de fama instantânea e sucesso sem esforço. No entanto, essa ilusão pode rapidamente se dissipar diante da realidade do trabalho árduo e constante que essa profissão exige. Pesquisadores como Carol Dweck, da Universidade de Stanford, destacam a importância de buscar um propósito significativo no trabalho, que vá além da simples busca por status ou reconhecimento superficial.


Nesse contexto, durante a pandemia, observamos um aumento significativo no interesse por formações em terapias holísticas e práticas de bem-estar. Muitas pessoas encontraram no estudo do tarô, cristais, meditação, aromaterapia e outras técnicas uma fonte de satisfação pessoal e profissional.

 
Essas práticas não só oferecem alívio aos momentos estressantes da vida, mas também proporcionam um sentido mais profundo de propósito ao ajudar os outros em sua jornada de autodescoberta e cura. Estudos conduzidos por pesquisadores como Martin Seligman, da Universidade da Pensilvânia, ressaltam os benefícios psicológicos e emocionais de encontrar significado e propósito no trabalho, contribuindo para uma maior sensação de bem-estar e realização pessoal.


Muitos profissionais que antes estavam presos em empregos tradicionais encontraram coragem para reavaliar suas carreiras e buscar novas oportunidades que estivessem mais alinhadas com seus valores e paixões. Embora o processo de transição possa exigir paciência e determinação para se reconstruir profissionalmente, os resultados muitas vezes valem a pena. Essa busca por significado no trabalho não apenas beneficia o indivíduo, mas também contribui para uma sociedade mais saudável e equilibrada, onde as pessoas estão verdadeiramente engajadas e satisfeitas com suas atividades diárias.


É importante reconhecer que nem todos têm a mesma liberdade de deixar seus empregos para seguir algo que realmente os preencha. Pesquisas mostram que uma parcela significativa da população enfrenta dificuldades financeiras e restrições socioeconômicas que limitam suas opções de carreira.

 
Estudos como o relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre o mercado de trabalho global destacam as desigualdades existentes no acesso ao emprego digno e remunerado em muitas partes do mundo. Além disso, a pesquisa realizada por Richard Florida, da Universidade de Toronto, ressalta as disparidades econômicas e geográficas que influenciam as oportunidades de trabalho e o acesso a recursos educacionais e de formação profissional.


Para muitas pessoas, especialmente aquelas que enfrentam condições socioeconômicas desfavoráveis ou que têm responsabilidades familiares, deixar seus empregos para buscar algo que as preencha pode parecer um luxo inatingível.


Fatores como a falta de educação ou treinamento adequado, a falta de redes de apoio e as pressões financeiras podem tornar difícil a busca por alternativas de carreira mais gratificantes.

 
Além disso, pesquisas mostram que a incerteza econômica e as mudanças nos mercados de trabalho podem aumentar a relutância das pessoas em arriscar mudanças significativas em suas trajetórias profissionais.


Portanto, enquanto é importante incentivar e apoiar aqueles que têm a capacidade e os recursos para buscar trabalhos mais significativos e satisfatórios, também é essencial reconhecer as barreiras estruturais e sistêmicas que impedem muitos indivíduos de seguir esse caminho.

 
A promoção da igualdade de oportunidades, o acesso equitativo à educação e a proteção social são aspectos cruciais para garantir que todos tenham a chance de buscar um trabalho que verdadeiramente os preencha, independentemente de sua origem ou circunstâncias socioeconômicas.


Ao compreendermos nossa situação atual e as circunstâncias que nos cercam, podemos traçar estratégias mais realistas e viáveis para alcançar nossos objetivos profissionais e pessoais. Isso inclui reconhecer as limitações e desafios que podem estar presentes em nosso caminho, bem como identificar os recursos e apoios disponíveis para nos ajudar a superá-los.


Ao ter consciência de nossa realidade, podemos tomar decisões mais informadas e direcionadas, adaptando nossos planos e aspirações de acordo com nossas circunstâncias individuais. Isso pode envolver ajustar nossas expectativas, explorar diferentes opções de carreira que estejam alinhadas com nossos interesses e habilidades, e buscar oportunidades de desenvolvimento profissional que nos ajudem a progredir em direção aos nossos objetivos.


Agora vamos supor que você odeie o seu trabalho, seus colegas, sua rotina e simplesmente não tem condições de chutar o balde nesse momento. Qual a solução imediata para não sofrer um burnout?


Estudos têm demonstrado os benefícios de equilibrar atividades profissionais com hobbies e interesses pessoais para promover o bem-estar emocional e a satisfação geral com a vida. Uma pesquisa publicada no Journal of Occupational and Organizational Psychology descobriu que o engajamento em atividades de lazer fora do trabalho está significativamente associado a níveis mais baixos de exaustão no trabalho e maior satisfação no trabalho. Isso sugere que investir tempo em hobbies e interesses pessoais pode ajudar a aliviar o estresse e a fadiga associados às demandas do trabalho, contribuindo para uma melhor qualidade de vida.


Participar regularmente de atividades de lazer, como hobbies, está associado a níveis mais baixos de depressão e ansiedade. Os pesquisadores observaram que o envolvimento em atividades que proporcionam prazer e significado pode aumentar os sentimentos de felicidade e bem-estar, mesmo em situações de estresse ou insatisfação no trabalho.


Outra pesquisa realizada pela Universidade de Rochester descobriu que a participação em atividades de lazer criativo, como pintura, escrita ou música, pode melhorar a resiliência psicológica e promover uma maior sensação de controle sobre a própria vida. Essas atividades estimulam a expressão criativa, fornecendo uma saída para emoções e pensamentos negativos, e promovem um senso de realização e competência que pode compensar as dificuldades enfrentadas no ambiente de trabalho.


O segundo livro da Livros que Facilitam nasceu dessa forma: eu não tinha condições de parar de trabalhar naquele momento e estava porta do cliente na Bela Vista, em São Paulo e ele me disse que demoraria uma hora para chegar. Meu ódio foi tão profundo naquela situação, que acionei minha válvula de escape: abri a bolsa, peguei uma caderneta de anotações e uma caneta e comecei a anotar uma lista de ‘etiquetas’ necessárias para receber um engenheiro enviado pelo banco. Em uma hora, eu tinha todo o esboço do Manual do Financiamento Bancário, escrito na força do ódio.

 
O alivio que se seguiu foi catártico.

 
Agora eu quero que você pense no que pesa na sua rotina do trabalho: são os colegas? Chefes abusivos? Clientes-sem-noção? Longas jornadas para ir e voltar para casa? Salário baixo? Você fará um brainstorming. Provavelmente não terá todos os elementos de uma vez (eu mesma demorei quase dois anos para perceber todos os pontos onde o ‘calo aperta’), mas pelo menos você terá pistas por onde começar a aliviar as tensões e desapegar do que não faz sentido.

A man in a gray shirt sits tiredly at a desk with a laptop and documents, showing signs of workplace stress.

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