Minha sobrinha está com pneumonia. O cenário em casa é um desastre completo: gritos, engasgos, vômitos e uma guerra a cada dose de antibiótico. Olhando aquele caos, não pude deixar de lembrar da minha época de “paciência curta” com a minha filha.
Eu nunca tive o que chamam de vocação para o martírio materno. Gosto de brincar, ler histórias, ver filmes. Na hora de ter que ser prática, nunca consegui encarar com bom humor. Se a criança cuspia o remédio uma ou duas vezes, o veredito era imediato: “Beleza, não quer tomar? Vamos para o hospital”. Lá, eu resolvia a questão na base da eficiência: pedia para aplicarem tudo direto no soro ou via injeção. A criança voltava para casa curada e eu voltava com a minha sanidade intacta.
Mas, sendo honesta, essa tática não nasceu apenas do meu pragmatismo materno; nasceu de uma dor muito mais aguda: a dor financeira.
Gastar dinheiro em farmácia é, para mim, um desperdício. Poderia ter comprado um hamburger! Eu sempre detestei a Benzetacil, como qualquer pessoa que já encarou essa injeção maligna. Mas tudo mudou no dia em que o meu primeiro salário caiu na conta e eu tive que pagar, do meu próprio bolso, a minha primeira cartela de Azitromicina. Ali, a perspectiva mudou.
Hoje, minhas consultas seguem um roteiro muito bem ensaiado. Quando o médico termina de escrever a receita, eu lanço a pergunta sem nem piscar:
— Querido doutor, esse remédio que o senhor está passando… eu consigo pegar de graça no posto de saúde?
Se ele faz aquela cara de “provavelmente não”, eu não perco tempo:
— Então, por favor, o senhor pode me passar uma Benzetacil? Eu tomo ali na enfermaria agora mesmo e já saio resolvida.
Saio do hospital com a bunda dolorida, mancando um pouco, mas com o bolso leve e a consciência tranquila. É impressionante como a minha resistência à dor física aumentou exponencialmente desde que os remédios ficaram caros. A agulhada sai mais barata que qualquer pílula parcelada.
