A generosidade é assassinada pela obrigação de oferecer

Hoje quero falar sobre a minha suposta “incapacidade de me expressar corretamente”. Ou, como os outros preferem chamar: o meu egoísmo crônico.

Tivemos a festa de aniversário da minha filha no último domingo. Eu escolhi estar lá, escolhi participar, o que já é um esforço diplomático considerável. Tudo corria dentro da normalidade tediosa de uma celebração familiar até que meu pai decidiu exercer sua generosidade usando o meu patrimônio.

Ele simplesmente abriu a geladeira, pegou um vinho que eu havia escolhido a dedo e serviu para os convidados com um tom de deboche que me é muito familiar. Levei seis meses para conseguir ir até a vinícola, estudei o rótulo, investi um valor considerável e, acima de tudo, investi expectativa.

O problema não foi o preço, mas a invasão. A surpresa de ver alguém dispondo do que é seu sem sequer um “por favor” e, de quebra, ainda se sentir no direito de ficar ofendido porque eu fiz “cara feia”. Sim, eu fiz uma cara horrível de surpresa e decepção. Peço desculpas por não ter um controle facial robótico enquanto meu planejamento de seis meses era servido em copos de plástico para pessoas que, no fim das contas, ainda tiveram a audácia de dizer que o vinho era ruim.

Dizem, desde que eu era pequena, que sou egoísta. Mas tive um estalo, um insight sobre a natureza desse rótulo. É muito fácil ser uma alma caridosa com o chapéu alheio. É uma delícia oferecer o que não te custou nada e ainda exigir que o verdadeiro dono sorria e agradeça pela oportunidade de ser saqueado.

Se tivessem esperado, se tivessem perguntado, talvez eu mesma tivesse aberto a garrafa. Talvez a generosidade tivesse surgido de forma orgânica. Mas, como diria a nossa filósofa contemporânea Alanis Morissette: a iniciativa da generosidade é assassinada pela obrigação de oferecer.

Quando dividir se torna uma regra imposta, o prazer de dar morre no ato. Eu não sinto impulso de ser generosa quando sou obrigada a repartir. É uma lógica simples que parece escapar à compreensão da maioria das pessoas.

Espero que a minha filha entenda isso. Teremos essa conversa em breve. Vou ensiná-la que ela não é obrigada a entregar o que é dela só para validar a “bondade” para terceiros. Se você quer que alguém se torne um adulto minimamente generoso, pare de forçá-lo a ser um otário na infância.

No fim das contas, se isso é ser egoísta, eu aceito o título com prazer. Prefiro ser o “grinch” do aniversário do que a plateia sorridente do desrespeito alheio.

Close-up of two hands passing a small orange ball, symbolizing cooperation.

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