Tarô Terapêutico

Para me acalmar, eu conto piadas e assisto standups. Pelo menos, quando a única alternativa para uma pessoa sem orçamento é o Youtube.
A comédia me deixa em uma zona de conforto empoderada onde meu ceticismo encontra o sarcasmo e sinto que nenhum argumento pode me derrubar sem ser alfinetado antes.
Foi com essa mentalidade que entrei no TikTok e vi absurdos que não compreendi até hoje: trends com dancinhas e textos sobre saúde mental.
Como uma pessoa com ansiedade generalizada, eu jamais teria a serenidade de fazer uma dancinha e apontar para uma legenda “estou no meio de uma crise.”
Pesquisei alguns gurus mais ‘renomados’ para tentar entender que porcaria era aquela. Muitas pessoas estavam falando sobre focar no positivo (aparentemente a dancinha era algo ‘positivo’ a ser focado).
Liguei para um amigo que eu sabia que estava nessa vibe de virar miçangueiro na praia para conversar despretensiosamente. Ele me falou sobre energias, sobre olhar sempre o positivo, sobre ter comprado um carro mesmo sem dinheiro, pois ele sabia que todo mês, no dia do pagamento da parcela, o valor apareceria em sua conta.
Aquilo ia contra tudo o que eu aprendi como uma boa educação financeira. Ele era o verdadeiro conceito de Positividade Tóxica. Era aquela pessoa que briga com alguém, depois envia “eu te perdôo e se você não me perdoar também, o karma é seu. Beijos de luz.”
Segundo ele, eu não conseguiria afastar as ‘bad vibes’ se não focasse em todos os ensinamentos positivos que as tragédias da minha vida trouxeram. Além do ‘livramento’ do embuste, eu não conseguia enxergar mais nada.
Good Vibes pra mim é dinheiro na minha conta. É saber que não vou ficar sem troco para o mercado da semana. É ter meu próprio apartamento onde eu controlo minha alimentação, se vou arrumar minha cama e a temperatura do chuveiro. É conseguir colocar minha filha em uma escola boa, na natação e talvez no ballet. É poder ir ao cinema sem pensar no valor do ingresso.
Enfim, me despedi do miçangueiro e fui direto para a terapia onde tomei outro tapa na cara:
A responsabilidade pelo que acontece comigo, na verdade, é a responsabilidade por permitir que alguém fizesse o que fez. Achei ‘permissão’ uma palavra mais digerível para olhar para o assunto.
Ao não ouvir minha tímida intuição quando me pediram para parcelar o videogame, quando concordei em casar mesmo gaguejando e querendo dizer o oposto, quando dei os votos de confiança mesmo quando minhas propriedades eram passadas para terceiros, eu estava silenciando uma parte de mim que estava em um campo irracional. E todo o tipo de irracionalidade sempre foi confrontado.
Irônico dizer que, para alguém que gosta de arte, de ler, de escrever e precisa estar em harmonia com as emoções, eu estava há anos ignorando essa parte menos sólida da minha existência. Não foi surpresa ao olhar para minha produção nos últimos anos e ver que fiz mais cálculos e menos aquarelas. Mergulhei no cinza e arrisquei menos cores.
Aqui, dei outro Google. Eu estava buscando pseudociências para encontrar respostas e elas eram tão confiáveis quanto um pastor que oferecia uma vaga no céu. Logo, talvez tudo aquilo que estava sentindo em relação à minha evolução na jornada pela diminuição da ansiedade não passasse de um efeito placebo.
Bom, era um placebo que estava me acalmando.
A intuição é inexplicável, mas ela tinha me dado alertas que não poderiam ser ignorados, logo, eu precisava entendê-la, com pseudociência eu não.
Fui apresentada a uma professora de Tarô. Ela estava abrindo uma turma para vivenciar a jornada dos arcanos, uma carta por semana, e o valor estava acessível naquele momento.
Mal começaram as aulas e a pandemia fez com que todos se isolassem em casa. Era tudo o que eu precisava para me dedicar ao estudo e, confesso, foi muito divertido.
Antes de mergulhar em uma jornada, preciso retornar um pouco e mencionar quando conheci o jogo das cartas. Acho que, como todos, conheci a astrologia primeiro, lendo as recomendações diárias para meu signo no jornal. Achava coincidência e ficava desconfiada cada vez que uma previsão se confirmava de maneira literal demais.
Uma vez, sonhei com um avô falecido e tive a sensação de estar realmente com ele. Ele me disse que o tempo da minha avó estava se esgotando e eu acordei. Como toda manhã, fui ler o jornal e ao percorrer meus olhos no meu signo, lá estava escrito ‘anote seus sonhos, pois terá uma previsão’. Anotei. Minha avó morreu vinte dias depois.
Não acredito nas bruxas, mas que elas existem, existem.
A primeira vez que fiz uma leitura, fiquei espantada com a precisão de informações, sendo que eu mal tinha falado meu nome. Questionei internamente se as coisas ditas não eram vagas demais e, consequentemente, se encaixariam na vida de qualquer um, mas aos poucos, situações e datas começaram a emergir e me fizeram acreditar que tinha algo ali.
Porém, nunca tinha procurado entender.
Quando perguntei para a professora sobre os benefícios do tarô, ela disse justamente o que eu estava buscando: ajuda a desenvolver a intuição.
A jornada em si era diferente de tudo o que já tinha visto. Estudamos um arcano por semana e, após a aula, viveríamos uma semana tendo experiências que nos fariam “sentir” as sensações daquela carta.
Cética, entrei na carta do Louco sem acreditar muito. Foi uma semana maravilhosa. Iniciei um quadrinho novo, abri um novo perfil no Instagram e comecei um novo livro. Fui tomada por uma súbita inspiração que não tinha tido em anos. Na aula seguinte, anotamos as experiências e aprendi que O Louco é sobre inícios, é sobre ter o estopim de começar algo.
Maravilhada, fui para a segunda que era O Mago. Teoricamente, é uma carta que fala sobre as possibilidades de tornar seus desejos reais, de concretizar o que quer. Eu apenas desejava ter um pouco mais de dinheiro na conta, afinal, os boletos estavam chegando e o trabalho estava escasso. Não fiz nenhum movimento aquela semana. Não liguei, não escrevi postagem, não falei com ninguém. Do nada, o ex depositou a pensão atrasada e eu… estava certa que tinha encontrado algo muito mágico.
Foram trinta e três semanas mergulhada em um mundo que não conhecia. A carta que mais me surpreendeu foi a do Diabo. Ele nos instiga a ver um lado o qual não nos agrada, que deixamos escondido dos olhos da sociedade. Eu imaginei que teria uma linda semana cheia de sexo, drogas e rock & roll, mas… para minha surpresa, passei a semana super emotiva, comendo sorvete e assistindo “Meu Primeiro Amor”. Sim, meu lado ‘menininha frágil’ é algo que escondo e me envergonho.
Foi muito autoconhecimento em menos de um ano. Ganhei confiança na minha intuição (não deixo mais de ouvir quando meu radar capta alguma perturbação na força) e aprendi a fazer leituras para mim mesma e para outras pessoas.
O que achei mais incrível de toda essa experiência é que o Tarô, diferentemente de ‘bruxaria’ ou ‘adivinhação’, tem história e simbolismos. São passagens da mitologia que nos levam à reflexão de nossas próprias ações. Eu não uso o tarô para adivinhação, nem acredito que seja possível, mas quando estou angustiada por algum motivo, abro minhas cartas e pergunto o que não estou vendo, ou que lição preciso aprender com determinada situação.
As cartas me acalmam e esse foi o maior presente que tive durante essa jornada.

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