FengShui- Arquitetura e Mandinga

Era uma tarde chuvosa quando me vi mergulhada de cabeça em mais um capítulo da minha jornada de autoconhecimento. Após as boas surpresas com o Tarô, decidi explorar o misterioso mundo do FengShui. Confesso que, no início, tudo parecia um tanto gasoso demais para a minha formação racional em arquitetura. Mas como resistir à promessa de harmonizar as energias e encontrar um equilíbrio que sempre me pareceu tão elusivo?
Então, lá estava eu, navegando na vastidão da internet, pesquisando sobre as técnicas milenares do FengShui e comprando livros sobre o assunto. De início, achei que seria apenas mais uma aventura na minha busca por algo além do concreto e do tangível. Mas logo descobri que havia muito mais por trás dessa prática do que eu jamais poderia imaginar.
O FengShui é uma arte antiga que busca harmonizar os espaços com as forças da natureza, equilibrando as energias yin e yang. Acreditava-se que, ao organizar os ambientes de acordo com os princípios do FengShui, poderíamos atrair prosperidade, saúde e harmonia para nossas vidas. Sinceramente, parecia algo saído de um conto de fadas oriental, mas decidi me permitir a experiência. Quem sabe aquela sambambaia na sala ou seria a resposta para acertar na Mega Sena? Sim, eu estava desesperada.
Com meu ceticismo em uma mão e minha curiosidade na outra, comecei a aplicar as técnicas do FengShui em minha própria casa. Reorganizei móveis, coloquei objetos simbólicos em lugares estratégicos e até mesmo fiz uma verdadeira revolução nos cômodos. Meu cantinho passou por uma metamorfose sutil, e eu me vi rodeada por mandalas, sinos de vento e cristais. Se alguém me dissesse há alguns meses que eu faria isso, eu riria descrente. Mas ali estava eu, completamente envolvida em uma atmosfera mística e crenças milenares.
Também conheci a Marie Kondo e alinhei as técnicas de harmonização com organização e minimalismo, afinal, percebi os benefícios práticos daquilo tudo: eu passava menos tempo fazendo faxina.
A organização parecia ser algo prático e útil para meu dia-a-dia, mas depois de passar um dia inteiro revendo meu guarda-roupas, confesso que foi uma espécie de auto-terapia.
Como um jogo de tétris, organizei minhas coisas por volumes e cores. Ao ver uma blusa que não usava há tempos, lembrei que a última vez que tinha colocado eu passei por uma situação desagradável, então, para não lembrar daquilo, coloquei para doação. Descartei documentos, partes de computador e até encontrei uma foto do ex que por algum motivo havia sobrevivido a primeira limpeza. Decretei para mim mesma que era a última vez que lembraria de qualquer coisa relacionada aquela violência patrimonial.
É realmente muito empoderador quando percebemos pequenos gatilhos diários e os removemos da nossa frente. É encorajador colocar reduzir uma situação amarga a uma caixinha e colocá-la para fora de casa. É uma maneira de se poupar de pequenos desagrados quando sua vida já mudou e sua rotina já é outra. Não dá para olhar para trás.
Enquanto o ambiente ao meu redor parecia ganhar novas energias, não pude deixar de questionar o mundo da arquitetura convencional em que eu estava inserida. Como uma arquiteta, minha formação sempre foi baseada em técnicas modernas, funcionais e racionais. O FengShui era uma grande contradição para tudo o que eu aprendi nas escolas de arquitetura.
Enquanto equilibrava as energias da minha casa, percebi que também precisava lidar com a desordem e as crises de pânico que o mundo da arquitetura tradicional me impunha. Afinal, aprovar projetos em escritórios de arquitetura e órgãos públicos era um verdadeiro martírio.
Lidar com a burocracia e as propinas que permeavam esse mundo era uma tarefa exaustiva e frustrante. Era como se, a cada passo que eu dava em busca de aprovação, um novo obstáculo surgisse para testar minha paciência e perseverança. Em alguns momentos, cheguei a pensar que as crises de pânico que eu experimentava eram uma resposta natural a todo esse caos. E todas as vezes que algo ilegal se desenrolava na minha frente, minha vontade era pegar o telefone e denunciar, correndo o risco de nunca mais ter nenhum projeto aprovado.
Enquanto minha mente oscilava entre o ceticismo e a esperança, mergulhei mais fundo nas práticas do FengShui. Afinal, o que eu tinha a perder?
Com toda a jornada até aquele momento, eu tinha entendido algumas coisas sobre mim mesma: eu estava no meu melhor quando estava aprendendo. A posição de estudante ou pesquisadora me impulsionava para frente.
Não existe meio-termo ou jogo de cintura quando se trata de honestidade. Só porque todos pagam propina para o funcionário público fechar os olhos para desvios intencionais de projeto, não torna esse fato certo. Eu não sou comprável e minha integridade moral não está à venda.
Quando trabalhei em uma construtora, tive que lidar com assédio no trabalho. Na época, pensei em denunciar, mas fui avisada que, ao denunciar, eu estaria fechando todas as portas do mercado. Todas as outras construtoras saberiam o que eu tinha feito, como se fossem todas interligadas por ramais de fofocas. Era um mundo em que o feminismo e as denúncias de assédio ainda não eram comuns e cada pensamento de ir ao judiciário era mais um passo em direção ao desemprego eterno.
Ao perceber que eu poderia aplicar o Feng Shui na minha vida, também percebi que não era algo que eu queria fazer profissionalmente. Tenho meus incensos, minhas mandalas, meus Baguás e todo o kit-mandinga em pleno funcionamento em casa, mas não quero prestar esse serviço. Não quero mais trabalhar com arquitetura. Quero voltar para meu sonho de infância, onde eu queria viver de contar histórias, de escrever e ter uma existência mais leve. Longe de obrigações burocráticas.
Essa leveza que busco, talvez também seja a resposta para muitos dos meus problemas. Para quê insistir em uma profissão que me faz desejar cair morta todos os dias? Para quê colocar roupas apertadas que estão na moda sendo que eu fico incomodada? Para quê ter uma casa grande se vou ficar com raiva na hora de limpar? Para quê quero outro carro se fico com ódio de pagar o IPVA?
Não quero ser uma dessas pessoas de comportamento corrompido e que são moralistas no discurso.
Tive um insight. Talvez o que faça sentido para mim não é o que a maioria das pessoas quer. Um apartamento pequeno próximo ao metrô me deixaria muito mais feliz do que ter um espaço maior e contratar alguém semanalmente para fazer faxina (por mais que supostamente tivesse condições financeiras para tal).
Eu não quero trabalhar em um escritório das 8h às 18h. Eu não quero aguentar colegas de trabalho apenas para ‘fazer o social’. Isso é ridículo. No meu mundo idealizado, cada um cumpre a sua função e vai pra casa, onde a felicidade realmente está.
Até esse ponto, minha jornada culminou em um questionamento geral de tudo o que pensei que fosse concreto e imutável na sociedade. Depois de quase três anos de buscas, comecei a entender essa coisa de energia.
Não me tornei nenhuma profissional do Konmarie ou do Fengshui, mas ao aplicá-los em mim, fui obrigada a fazer uma coisa que não estava mais acostumada: olhar minhas coisas, refletir seu propósito e consequentemente, entender o lugar que quero ocupar.
Eu não preciso carregar obrigações. Eu posso deixar meu fardo mais leve se assim escolher e, com menos preocupações, consigo ser mais feliz, com mais felicidade, consigo criar mais e o que me deixa ainda mais alegre.
Descobri que essa jornada em busca de autoconhecimento e harmonia não tinha um fim definido. Ela era um constante aprendizado e uma contínua busca por equilíbrio. Eu ainda tinha minhas crises de pânico, ainda enfrentava a burocracia e o ceticismo, mas agora eu tinha uma bússola para me guiar: a busca por paz.

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