Meditação Mindfulness

Minha filha já estava completando dois anos. Para uma pessoa que não queria ter filhos, eu até aguentei bastante tempo o cheiro de coco e de vômito sem pedir umas férias.
Eu tinha conseguido quitar um dos cartões depois de muita negociação no banco e estava morando com meus pais, para meu alívio e desespero. Só quem já foi morar sozinho e precisou voltar para a casa dos pais vai entender o sentimento conflitante.
Eu estava bastante nervosa, trabalhando muito em algo que não gostava (arquitetura). Apesar de ter uma rotina longe do escritório, sempre me imaginei substituível e o temor de ser dispensada me assombrava. Mesmo com um diploma de pós-graduação em engenharia de segurança do trabalho, eu não conseguia tranquila. Em regime de MEI, sem garantias trabalhistas, me perguntava o que aconteceria se tivesse um gasto extra.
Nesse ponto em entrei em uma total reavaliação da minha jornada profissional: Não tive um trabalho em que não esbarrava em uma atitude moralmente duvidosa pela tangente. Na construtora lembro do assédio do engenheiro chefe que me causava ataques de pânico escondidos nas escadas com cimento fresco. Fui trabalhar em um escritório de arquitetura que estava envolvido no escândalo da máfia do ISS. Quando decidi me virar sozinha, peguei projetos para aprovar nos órgãos públicos, porém, a morosidade de anos só é remediada com uma ‘ajuda extra’ que eu nunca tive estômago para acatar.
Será que esse mundo realmente era pra mim?
O Reiki não estava mais me ajudando. Meu nervosismo estava escalonando à medida que o tempo passava e eu não via um progresso palpável na minha situação financeira. Gastei muito com as terapias e elas pararam de me dar resultados. Eu fiquei enraivecida e meu ceticismo voltou.
Até que um dia estava navegando em eventos aleatórios e gratuitos para participar na minha cidade quando encontrei uma vivência de ‘silêncio e mindfulness’. Tinha usado alguns aplicativos de meditação antes e achei que cinco minutos prestando atenção na respiração eram bastante úteis quando estava pirando. Me inscrevi.
Confesso que, como uma cética nata e uma mulher ansiosa por natureza, me aventurar na meditação parecia uma piada pronta. No entanto, dizem por aí que é melhor experimentar do que simplesmente duvidar para sempre. Então, lá fui eu, mergulhar nessa experiência em busca de serenidade questionável.
A ideia de participar de um retiro de silêncio surgiu quase como um presente dos deuses. Minha filha de dois anos tagarelando “mãe” o tempo todo estava me levando à loucura. Então, um dia em total silêncio parecia uma oportunidade para ver se encontrava alguma paz.
Assim que cheguei ao retiro, fui recebida com sorrisos calmos e olhares zen. Será que eles perceberam que estava prestes a fazer piadas mentais sobre toda essa situação? Bem, não importava, eu estava ali para tentar e ver o que acontecia.
A meditação, segundo os especialistas, é sobre concentração, foco e respiração. Felizmente, essas coisas eu sabia fazer, mas me perguntava se a meditação seria realmente a solução para a minha mente inquieta. Será que conseguiria parar de duvidar de tudo por alguns minutos sequer?
Em uma das atividades de meditação “mindfulness”, fomos instruídos a andar pelas ruas apenas de meias e com um sorriso estampado no rosto. Foi difícil não rir da própria situação. Eu e outras pessoas sorrindo com meias nos pés, parecíamos figurantes de um The Walking Dead do amor. Quem diria que sorrir forçado seria uma forma de meditação? Mas, ao menos, estava me divertindo enquanto me esforçava para sentir o chão sob meus pés. Prestar atenção na sensação do asfalto debaixo dos dedos realmente foi algo que nunca tinha feito antes.
Outra atividade que me fez questionar seriamente minhas escolhas na vida foi a meditação da alimentação. Ofereceram para que abandonássemos os talheres para ter uma experiência diferente. Me entreguei ao mundo das texturas e sabores com as mãos. A cena era tão surreal que me senti como uma artista excêntrica em um programa de culinária experimental. Talvez esse fosse o segredo da meditação: abandonar os padrões e se permitir explorar o novo.
Enquanto tentava apreciar cada garfada com os dedos, sentindo a comida escorregar e se espalhar entre minhas mãos descoordenadas, refleti sobre o propósito de tudo aquilo. Será que isso realmente me ajudaria a encontrar um sentido na vida? Eu ainda tinha minhas dúvidas, mas estava disposta a continuar essa jornada.
Será que a meditação realmente poderia reduzir meu estresse e trazer a concentração que eu precisava para colocar minha vida nos eixos? Eu ainda estava cética, mas o relaxamento estava quase me fazendo concordar com tudo o que estava ouvindo.
Até que durante uma meditação guiada ouvi algo que quase me fez levantar e sair de lá. “Somos responsáveis por tudo o que acontece em nossas vidas.”
Não. Eu não era responsável por estar na merda.
Eu me RECUSEI a aceitar que era responsável por aquilo e saí do retiro muito, mas muito enraivecida. Saí de lá direto para a terapia (tradicional, com uma psicóloga com diploma) e decidida a colocar os pingos nos ‘i’s dentro de mim.
Nunca mais vi ninguém daquele retiro. “Namaste, porra!”

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