O Riso – Henri Bergson (uma receita)

Peço licença aos que acompanham esse blog para uma anotação pessoal. Estou estudando história do teatro e esse semestre meu queridíssimo professor Marcelo Braga indicou o livro O Riso, de Henri Bergson para estudarmos o gênero comédia.

O livro parece uma fórmula e como todas as fórmulas, se eu não anotar, esqueço. Em paralelo, por que não ajudar essa galera que curte um resumo, né?

Então, vamos lá:

 

  1. As Bases do Riso (Onde o riso nasce):

O riso, a comédia é de exclusividade Humana: Só rimos do que é humano ou do que “humanizamos”. Uma paisagem não é engraçada; um cachorro só é se parecer uma pessoa ou se fizer algo que atribuímos como humano.

Anestesia do Coração: O riso exige indiferença. Se você sentir pena ou raiva profunda, não ri. É preciso observar com a mente, não com o sentimento. Se você vê uma senhorinha caindo, pode ser que dê risada, mas não vai rir se for a sua vovó.

Eco Social: O riso não é solitário; ele serve para unir um grupo contra um comportamento estranho.

A Grande Definição: O riso surge quando vemos “o mecânico incrustado no vivo”. A vida é flexível, mas o cômico é rígido, automático e repetitivo como uma máquina. Como aquela cena de Chaplin em Tempos Modernos onde ele aperta os parafusos e os aperta mesmo quando eles deixam de aparecer na sua frente.

Função do Riso: Ele é um “castigo social”. Serve para humilhar levemente quem está agindo como robô, forçando a pessoa a voltar a ser atenta e flexível.

 

  1. O Cômico de Situação (Os mecanismos do jogo)

Para Bergson, uma situação engraçada funciona como um brinquedo:

O Boneco de Mola (Repetição): Duas vontades se enfrentam. Uma empurra, a outra volta sempre ao mesmo estado original. Uma ideia fixa que não muda, não importa o que aconteça.

O Fantoche (Manipulação): Quando percebemos que um personagem acha que é livre, mas está sendo movido por fios invisíveis (outra pessoa ou a própria situação).

A Bola de Neve (Efeito Dominó): Um pequeno erro gera uma reação em cadeia incontrolável que cresce até o absurdo. Como no filme Durval Discos onde a mãe do personagem chega ao absurdo de cometer um assassinato para manter a criança com ela.

Inversão: O “mundo ao contrário”. O mestre que aprende com o aluno, o caçador que é caçado. Como nos cartoons do Pernalonga, de o Eufrazino acaba atirando nele mesmo sem saber.

Interferência de Séries (O Mal-entendido): Quando uma situação pertence a dois mundos diferentes ao mesmo tempo. O personagem fala de amor, o outro entende negócios, e a conversa “encaixa” mecanicamente nos dois trilhos.

  1. O Cômico de Palavras e Gestos

Gesto vs. Ação: O gesto cômico é o tique, o movimento automático que escapa sem a pessoa perceber. A ação é pensada; o gesto é mecânico.

Disfarce e Coisificação: Rimos quando o corpo atrapalha a alma (um espirro na hora do discurso) ou quando tratamos pessoas como objetos (contar a esposa como se fosse uma mala).

Troca de Tons:  Degradação: Falar do solene com palavras baixas. Exagero: Falar do pequeno como se fosse gigante. Ironia/Humor: Descrever o que “deveria ser” como se fosse real, ou descrever o mal com a frieza de um cientista.

 

  1. O Cômico de Caráter (A alma do personagem)

O Personagem “Tipo”: Diferente da tragédia (que foca no indivíduo único), a comédia foca no geral. Rimos de “O Avarento” ou “O Ciumento” porque reconhecemos esse padrão em várias pessoas.

O Vício Parasita: Na comédia, o defeito parece uma peça mecânica “grudada” no personagem. Ele não sofre com o vício; ele apenas age conforme ele, de forma automática.

Inconsciência: O personagem cômico não sabe que é ridículo. Se ele percebesse e tentasse mudar, a graça acabaria.

Lógica do Sonho: O personagem cômico (como Dom Quixote) ignora a realidade para fazer o mundo caber na sua ideia fixa. Ele “relaxa” a inteligência como fazemos ao sonhar.

 

Basicamente, esses são os pontos sobre o que ‘faz rir’, no texto. Mas como eu sou do tipo que tudo tem que se tornar algo prático e, em breve, pretendo ainda lançar mais uma comédia romântica, resolvi fazer uma ‘receita de bolo’ do riso.

 

Ingredientes Principais:

1 Protagonista Rígido: Escolha um defeito ou uma mania (ex: obsessão por limpeza, mania de grandeza, distração extrema).

1 Vício de Ofício: Dê a ele uma profissão e faça-o falar e agir apenas como profissional, mesmo em momentos íntimos.

Um Grupo de Observadores: Pessoas que representem a “normalidade” social para rir ou se espantar com o protagonista.

 

Modo de Preparo:

Instale o Mecanismo: Coloque seu personagem em uma situação que exige mudança de planos. Faça-o ignorar os sinais e continuar agindo do mesmo jeito (a Rigidez Mecânica).

 

Crie o Mal-entendido: Faça dois personagens conversarem sobre coisas diferentes usando as mesmas palavras. Deixe o público ver os “dois trilhos”, mas mantenha os personagens cegos.

Use a Bola de Neve: Comece com um incidente físico pequeno (um tropeço, um espirro, uma palavra errada). Faça esse erro gerar uma confusão que vai aumentando até virar uma catástrofe.

Impeça a Emoção: Se o personagem sofrer de verdade, o público para de rir. Mantenha o tom leve (a Anestesia do Coração). O tom deve ser de “trote social”, não de tortura.

A Coisificação Final: No clímax, faça o personagem ser tratado como um objeto ou perder o controle dos seus movimentos, agindo como um boneco de corda.

Finalização:

O personagem deve ser “punido” pelo ridículo. A sociedade (ou o destino) dá um susto nele para mostrar que a vida exige atenção e flexibilidade. O riso final é a “espuma” que brilha sobre a seriedade da vida.

 

Bom, eis aqui minhas anotações e minha receita sobre esse livro. Espero que os curiosos de plantão apareçam para me agradecer depois por ter compartilhado e facilitado a vida da galera 🙂

Two clowns in bright costumes performing against a geometric backdrop, showcasing entertainment art.

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