Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativas. Essa frase de O Pequeno Príncipe.
Quando eu era mais nova, achava ela fofa. Hoje eu acho… preocupante.
Primeiro porque “eternamente” é muito tempo. As pessoas mudam. E você não necessariamente quer continuar responsável por alguém que virou outra pessoa completamente diferente daquela que você conheceu. Às vezes essa pessoa se torna alguém de quem você quer distância. E você não quer mais ter responsabilidade nenhuma sobre o que ela diz, faz ou se torna.
Acho que muita gente, principalmente depois de tudo que a gente viu nos últimos anos com polarização, já se pegou pensando nisso.
Mas por que eu estou falando disso?
Eu ouvi uma história no Não Inviabilize, que eu adoro, e não foi a primeira nesse estilo. A moça se apaixona, entra num relacionamento aparentemente normal, o cara trabalha, se vende como empreendedor, aquela coisa meio alternativa, meio “faço meus próprios projetos”. E ela, na melhor das intenções, começa a indicar o trabalho dele para amigos e colegas.
Resumo: o cara era um golpista.
E não um golpista pequeno. Golpe de milhares de reais. E ela não fazia ideia. Anos de relacionamento, filhos, vida construída… e zero noção do que ele realmente fazia.
No caso dessa história específica, ela perdoa e continua com ele. Eu, particularmente, não concordo. Mas esse nem é o ponto.
Porque não é um caso isolado.
Tem várias histórias assim. E eu fiquei pensando nisso porque eu já vivi algo parecido. Meu ex deu golpe em clientes. E eu juro que, na época, eu achava que ele era uma boa pessoa. Eu achava que ele estava com problemas psicológicos. Ele vinha com aquele discurso: burnout, ansiedade, não consigo sair de casa, preciso de ajuda… e eu comprei.
E não, eu não teria feito isso com alguém. Mesmo em colapso, eu teria resolvido o problema do cliente primeiro. Só fui entender o que estava acontecendo muito tempo depois.
E não fui a única. Conheço outra pessoa que passou exatamente pela mesma coisa. Casamento longo, vida estável, filhos… e do nada descobre que o parceiro aplicava golpes. Nesse caso, era a esposa. Ele só descobriu quando começaram a cobrar ele.
E aí vem a pergunta que não sai da minha cabeça: por que as pessoas assumem automaticamente que o cônjuge está envolvido?
Porque, muitas vezes, não está.
Às vezes é só desinteresse. Às vezes você está vivendo sua vida, trabalhando, pagando conta, tentando sobreviver, e não faz a menor ideia do que a outra pessoa faz para ganhar dinheiro. Eu mesma não tinha interesse. Zero. Eu tentei ajudar uma ou duas vezes, mas não tinha acesso a informação nenhuma.
No caso da história do podcast, a moça tinha uma rotina CLT, entrava cedo, saía tarde, e o cara colocava comida em casa. Para ela, estava tudo funcionando. Por que desconfiar?
E aí, quando tudo estoura, vira um problema conjunto. Como se você tivesse participado. Como se fosse cúmplice. Quando, na prática, você só não estava olhando.
Então talvez a pergunta seja outra.
Se você quer se relacionar com alguém, você precisa saber exatamente o que essa pessoa faz da vida?
Não sei.
Mas parece que esse é mais um abismo que a gente precisa atravessar para conseguir se relacionar hoje.
Porque as pessoas não são totalmente transparentes. Elas têm camadas. Elas têm versões. Elas têm coisas que escondem — às vezes até de quem dorme na mesma cama.
E aí eu chego numa conclusão meio incômoda.
Será que é por isso que tanta gente está se aproximando mais de inteligência artificial do que de pessoas reais?
Porque pessoas mentem. Pessoas escondem. Pessoas podem, literalmente, ferrar a sua vida.
Uma IA pode até errar. Mas dificilmente vai te dar um golpe de milhares de reais enquanto você acha que está num relacionamento seguro.
Pois é.
