Desconstruindo Preconceitos

Estava em um momento de desconstrução de certezas. É incrível como questionamos autoridades, chefes e leis, mas não questionamos os ensinamentos passados de pai para filho.
Eu tive tantos preconceitos ridículos e demorei mais do que deveria para acordar e entender que aquilo era algo que me ensinaram como errado e eu nunca questionei. Tomei muitas verdades como imutáveis e passei muita vergonha em rodas de conversa ao destilar discriminação e intolerância sem ao menos ter consciência daquilo.
Há poucos dias vi uma tia elogiar um ator. “Um pretinho lindo, com nariz fino, igual de branco.” Não pude acreditar em meus ouvidos e ela, alienada ao que acabara de dizer, continuava tecendo elogios preconceituosos, acreditando realmente que dizia algo bom.
Há anos, meu pai, racista, machista e homofóbico, encontrou acalento para sua intolerância na igreja evangélica. Ele nega que tenha qualquer tipo de discriminação, mas não perde a oportunidade de ‘evangelizar’ um irmão perdido nos caminhos que não são de ‘Deus’. Ele chegou ao cúmulo de dar ordens para minha mãe lavar copos com cândida quando convidei alguns amigos LGBT+ para almoçar em casa. Envergonhada, me afastei dos meus amigos.
Origens de palavras, expressões, a maneira que fui ensinada a atravessar a rua se visse alguém ‘suspeito’. Revi tanta coisa e sei que ainda tenho muito a aprender e descontruir; são coisas que meu privilégio branco nunca me deixou enxergar.
A partir do momento que liguei o botão da desconfiança, me dei a oportunidade de conhecer mais sobre religiões de matrizes africanas e nunca fiquei tão admirada. Como amante de cultura e arte, me pergunto como nunca havia me questionado sobre a Umbanda antes.
Confesso que caí em uma gira por acaso, estava tomando um café com uma amiga quando ela me disse que precisava ir embora para não se atrasar. Foi então que ela me convidou e eu a acompanhei.
Quando entendi onde estava, fiquei um pouco apreensiva, mas o ambiente era muito acolhedor, as pessoas muito agradáveis e crianças brincavam de correr entre as cadeiras. Não existia uma mãe ou um pai que pegasse as crianças pelo braço e as colocasse de castigo com um puxão de orelhas. Era tudo muito leve e diferente do que eu conhecia como ambiente religioso.
Certa vez me perguntaram se eu já tinha falado com uma entidade. Na época, a palavra ‘entidade’ estava ligada a algo beneficente. Não conhecia o contexto de guia espiritual e não sabia que pessoas ‘incorporavam’ espíritos.
E lá fui eu, com um botão de ceticismo ligado, conversar com um Preto Velho. Um jovem de no máximo quarenta anos estava andando como um senhor de idade e falando em uma linguagem um pouco antiga. Achei estranho, mas comecei a conversar e… foi surreal a leveza que senti. Mais que o Reiki, mais que o Tarô. Foi uma conversa despretensiosa de cinco minutos que me deixou incrivelmente feliz.
Com a intuição já funcionando em pleno vapor, entendi que lá era um lugar que me fez sentir muito bem.
Por que, então, existia tanto preconceito com uma religião toda gostosa? Cheia de cores, sabores, pessoas felizes? Fui pesquisar e comprei um bocado de livros.
Ao longo de sua trajetória, a Umbanda enfrentou diversos desafios relacionados a preconceitos e estigmas, que surgiram devido à falta de conhecimento e compreensão sobre essa religião afro-brasileira. Desde sua fundação, foi marcada por um sincretismo religioso, uma combinação de diferentes elementos de tradições espirituais, o que muitas vezes gerou mal-entendidos e associações equivocadas.
A origem da Umbanda remonta à década de 1920, em um contexto cultural diversificado e rico, onde as religiões africanas, como o Candomblé, se misturaram com crenças indígenas e elementos do Catolicismo. Esse encontro de culturas deu origem a uma religião sincrética, que incorporou uma variedade de práticas e símbolos.
Entretanto, esse sincretismo religioso também foi responsável por gerar preconceitos. A fusão de crenças nem sempre foi bem compreendida por aqueles que não praticavam a Umbanda, resultando em interpretações errôneas, como a associação da religião ao paganismo ou bruxaria, o que acabou alimentando o preconceito contra seus adeptos.
Uma das ideias equivocadas mais comuns é a crença de que a Umbanda cultua o Diabo ou o mal. Essa associação errônea surgiu do sincretismo com o Catolicismo, que muitas vezes relacionou as entidades espirituais da Umbanda a santos católicos. Em uma das leituras, me deparei com a associação de Exu (guardião da comunicação entre o céu e a terra) ao Diabo e que foi encorajado pelos próprios membros para proteger os templos. Colocados como dono das encruzilhadas, quando desavisados se dirigiam ao templo, se assustavam e deixavam de perseguir os fiéis.
Contudo, é importante esclarecer que os exus são considerados guardiões e protetores dos terreiros de Umbanda e têm importância fundamental nas cerimônias e rituais da religião.
Essa visão preconceituosa e deturpada da Umbanda resultou em perseguições e discriminação ao longo dos anos, com o fechamento de templos e terreiros, além da marginalização de seus praticantes. O desconhecimento sobre a religião e o medo do que é diferente contribuíram para a perpetuação desses preconceitos.
A Umbanda é uma religião inclusiva, que valoriza a caridade, o respeito à natureza e a busca pelo autoconhecimento. Seus ensinamentos promovem a conexão com a espiritualidade e com os ancestrais, buscando a harmonia entre os seres humanos e o mundo espiritual.
Não preciso nem dizer que respeito a natureza e a busca pelo autoconhecimento estava completamente alinhada à minha busca.

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