Eu sou uma pessoa que tem pavor de agulhas. Sempre tive. Não importa se é uma injeção no braço, uma picada no dedo para medir a glicose ou até mesmo agulhas de tricô, todas elas causam arrepios na minha espinha e me fazem desejar estar a quilômetros de distância.
Quando fui adolescente, tive que tomar o reforço de algumas vacinas. Eu chorei e implorei para não fazerem isso, mas não adiantou. Eles me deram a injeção e eu quase desmaiei de medo. Foi uma experiência traumatizante que meu pai faz questão de lembrar e expor em todas as reuniões de família. Desde então, tenho evitado agulhas o máximo que pude.
Mas, um dia, uma amiga me disse que estava fazendo acupuntura no cachorro para amenzar a dor que ele tinha nas patinhas traseiras. Lá fui eu para o Google e vi que a terapia também era recomendada para crises de ansiedade. Eu não sabia se ria ou chorava. Ouvi desde pequena que os melhores remédios são os que têm o gosto mais ruim. Por mais que seja cética, existem algumas crenças que são implantadas em nossas cabeças quando somos crianças que parecem se repetir durante toda a vida. Se agulha é ruim, é porque funciona.
Eu estava nervosa. O divórcio estava recente, precisava entender como funcionaria a questão das visitas a minha filha e cada vez que conversava com a criatura, ele me enrolava um pouco mais. Estava crente que eu não estava apenas vulnerável, eu era idiota mesmo. Ele não estava pagando pensão e eu morria de medo de colocar um advogado para resolver a questão porque eu teria que pagar, enquanto ele era amigo de infância de um que não cobrava um tostão.
Minha amiga insistiu que eu deveria experimentar a tal acupuntura, que as agulhas eram diferentes, mais finas e que o processo não era doloroso. Eu olhei para ela com uma expressão de incredulidade, mas uma pequena faísca de esperança se acendeu dentro de mim. Com a experiência positiva com o Reiki, eu estava disposta a tentar… E se eu pudesse superar meu medo de agulhas ao mesmo tempo?
Com um misto de relutância e curiosidade, fiz minha primeira sessão. Eu estava um pouco nervosa, mas também animada para ver se a acupuntura funcionaria para mim. O terapeuta me pediu para deitar em uma maca e relaxar. Ele pediu para ver minha língua, o que achei maluco e pensei que o infeliz ia me molestar. Ele imediatamente me perguntou o que eu tinha comido e eu contei que estava chupando um pirulito de limão antes de entrar na sala. Foi aí que ele me explicou que na medicina chinesa analisar a coloração da língua também fazia parte do processo.
Os médicos de medicina tradicional chinesa (MTC) acreditam que a língua é um espelho do estado geral da saúde de uma pessoa. Eles podem usar a cor, a forma e a textura da língua para diagnosticar uma variedade de condições. A língua saudável é rosada e tem uma cobertura fina de saburra. A saburra é uma camada branca ou cinza que se forma na superfície. Uma língua saudável não tem manchas, rachaduras ou úlceras. Uma língua que é mais pálida do que o normal pode indicar anemia, deficiência de ferro ou problemas circulatórios. Mais avermelhada do que o normal pode indicar febre, inflamação ou infecções. Se é mais amarela pode indicar problemas hepáticos ou digestivos. Uma língua que é mais azul pode indicar problemas cardíacos ou pulmonares. E ainda, uma língua mais verde pode indicar problemas digestivos ou infecções. Não preciso nem dizer o que ele pensou quando viu minha língua cheia de pirulito, né?
A forma da língua também pode ser usada para diagnosticar condições. Por exemplo, uma língua que é inchada pode indicar problemas renais ou hepáticos. Uma língua que é rachada pode indicar problemas digestivos ou desidratação. Uma língua que é ulcerada pode indicar problemas digestivos ou infecções. Eu ganhei meu dia e dei confiança ao médico naquele ponto. Quando ele me explicou todos os detalhes, eu fiquei encantada por ter alguém que tivesse essa capacidade didática. Que sirva de exemplo a todos os profissionais. Explicações são valiosas!
Ele então inseriu as agulhas finas em diferentes pontos do meu corpo. No início, eu segurei a respiração, esperando pela terrível dor aguda que eu costumava sentir quando uma agulha era inserida na minha pele. Mas para minha surpresa, não senti nada. Absolutamente nada. Eu olhei para o terapeuta com um sorriso irônico no rosto e disse: “Isso é tudo? Não dói mesmo?” Ele apenas riu e explicou que as agulhas eram tão finas que a maioria das pessoas não sentia desconforto. Eu comecei a relaxar, ainda esperando por alguma surpresa dolorosa, mas ela nunca veio.
Enquanto as agulhas ficavam lá, eu comecei a sentir uma sensação de formigamento nos pontos onde estavam inseridas. Era uma sensação estranha, mas não dolorosa. O terapeuta então começou a mover as agulhas ao redor, e eu comecei a me sentir mais relaxada. Achei engraçado como eu estava me acostumando com a ideia de ter agulhas presas em mim. Senti uma coceirinha em alguns pontos e ele ainda me explicou que eram pontos de tensões que precisavam se dissipar (seja lá o que quis dizer com isso, mas curti a tentativa de explicação). A sessão de acupuntura durou cerca de 30 minutos.
Não foi bom, nem ruim. Me sinti relaxada após a sessão, mas após aquela segunda tentativa imaginei que tinha mais a ver com o fato que tinha deitado em um lugar confortável, com som de sinos de vento e temperatura agradável. Coisa que não fazia com frequência.
E que fique claro. Eu continuo com meu pavor e minha irônica relação com esses pequenos instrumentos de tortura. Mas no final das contas, a acupuntura foi outra experiência muito positiva, pelo menos, até dar um Google. A homeopatia, a acupuntura e a psicanálise são terapias que têm sido usadas por séculos, mas não há evidências científicas que sustentem sua eficácia. Em alguns países, essas terapias foram até mesmo removidas dos sistemas públicos de saúde.
Droga. Eu ainda preciso de evidências científicas para acreditar que não é coisa da minha cabeça.
Eu estou inserida em uma época onde temos gurus e especialistas em diversas áreas duvidosas como co-criação de abundância.
Entendo que uma pessoa em vulnerabilidade emocional, como era meu caso naquele momento, se torna sugestionável e uma presa fácil para uma infinidade de cursos para ‘vibrar na energia do dinheiro e resolver sua vida financeira’.
O Reiki me fez sentir melhor por algumas horas, assim como um antidepressivo que tomei por poucas semanas. Eu tinha consciência que estava feliz, mas que era uma falsa sensação de alegria, pois todos os meus problemas ainda existiam. Eu apenas estava me sentindo melhor.
A acupuntura me deu uma sensação muito parecida. Eu dormi melhor que havia dormido em meses aquele dia. Foi realmente revigorante, mas de maneira prática, não havia me dado nenhuma resposta que eu buscava.
