Meu mundo desmoronou aos poucos. Casei com um ser (não vou chamá-lo de humano) que preenchia alguns requisitos impostos pela sociedade: estava trabalhando, formando-se em engenharia (enquanto eu, em arquitetura) e tinha uma família aparentemente normal, com pais bacanas e situação financeira estável. Ótimo. Só que não.
Meu radar de problemas estava com defeito, pois perdi alguns alertas importantes durante o namoro: quando ele me disse que seríamos uma parceria de sucesso, eu, como arquiteta ‘desenhando’ e ele como engenheiro ‘construindo’. Não gostei de me ver reduzida à pessoa que desenhava. Nesse tempo, eu ainda acreditava que conseguiria um emprego estável com CLT, mas aquela fala plantou a semente do empreendedorismo em mim, e achei interessante ser minha própria chefe.
Meu primeiro protesto foi com seis meses de namoro quando ele quis comprar um videogame, mas não tinha cartão de crédito. Eu era extremamente organizada e – claro – tinha o nome limpo. Eu não gosto de jogos, então apenas o acompanhei a uma loja para conhecer o brinquedo. Foi ali, na frente do vendedor, que ele me encurralou e pediu meu cartão emprestado. Idiota que sou, emprestei e fiz uma dívida de dez meses com a promessa de que ele pagaria mensalmente antes do vencimento da fatura. Claro que só pagou as quatro primeiras e depois veio com a desculpa de que estávamos estáveis e “tudo era nosso”. Devo ter tentado jogar o videogame umas cinco vezes, no máximo. O aparelho ficou na casa dos pais deles para a sobrinha se divertir.
Meu desconforto cresceu quando percebi uma concorrência por salários. Toda vez que recebia um aumento, ele trocava de emprego ou se reunia com os chefes para aumentar o dele também. Era inadmissível ganhar menos que eu, assim como não suportava dirigir um carro mais rodado que uma colega com o mesmo cargo. Toda vez que ela trocava de automóvel, ele fazia dívidas imensas para trocar também. Pensei que talvez estivesse vendo coisas demais.
Um dia, um primo pediu dinheiro emprestado. Na frente do meu namorado. Eu prontamente disse que tinha um valor guardado, mas estava juntando para dar entrada em um apartamento, logo, não iria emprestar. Para quê falei aquilo? Em menos de uma semana, apareceu uma oportunidade ‘imperdível’ para adquirir um apartamento.
Meu ex me apresentou a um familiar que estava se divorciando e com um apartamento na planta. Ele queria se livrar do imóvel e aceitava ‘apenas’ o que eu tinha na conta e que eu assumisse as parcelas daquele ponto em diante. Realmente, pareceu algo incrível e concordei, tanto que morei no apartamento por um ano e pouco após a entrega.
Mas o contrato nunca saiu da gaveta. Cada hora havia um empecilho. Aproveitei para comprar um carro, e meu namorado viu a oportunidade para casarmos.
Lembro até hoje, no cartório, quando a juíza de paz perguntou se eu aceitaria me casar, eu tive um estalo, como se minha intuição gritasse que aquela era a maior burrada da minha vida. Gaguejei um ‘é isso aí’ ao invés de ‘sim’.
Poucas semanas após os votos, ele me disse que estava com problemas financeiros e que talvez fosse melhor colocar o carro no nome da mãe dele para que o banco não tomasse. Burra (eu sei), concordei.
Em paralelo, descobri que estava com uma infecção no útero e precisaria de um tratamento ou removê-lo. Quis fazer a cirurgia logo, mas a médica disse que não era legalmente possível fazer a cirurgia sem antes tentar um tratamento. Com o útero bichado, ela me assegurou que era impossível engravidar. Um mês depois, um teste de farmácia apontou positivo – para meu desespero.
Durante a gravidez, descobri tramoias terríveis do meu ex. Ele iniciou a vida de construtor e até me levava para conhecer os clientes, para assegurá-los de que teria alguém para fazer os ‘desenhos’ (porque planta era um nome muito sofisticado para denominar o meu trabalho) e também para se mostrar como um homem de família.
Ele recebia o pagamento dos clientes, mas não aplicava nas obras. Dizia que não era o suficiente e me pedia para direcionar meu salário a um pedreiro ou a uma loja de materiais. Sempre com uma planilha detalhada do lucro que teríamos em poucos meses. Infelizmente, sou uma pessoa de humanas e eles me enganou com mais números que eu sabia pronunciar.
Os clientes vieram atrás de mim e, ao revirar o escritório em um dia em que ele estava ausente, descobri recibos de jogos, de corridas de kart, de parcelas de carros que eu mal sabia que ele tinha.
Para resumir a novela: terminei um casamento sem apartamento, sem carro (pois nada estava no meu nome), com dívidas em três cartões de crédito (totalizando mais de oitenta mil reais) e uma bebê para cuidar.
À beira de um colapso, aceitei buscar ajuda e foi com uma indicação inusitada de uma ‘massagem relaxante’ que encontrei a primeira profissional holística.
Aqui, acho importante destacar que a única terapia que conhecia era a tradicional psicoterapia, com psicólogos com bacharel e um diploma registrado no MEC. Qualquer coisa além disso achava puro charlatanismo.
Imagina só, eu, uma pessoa cética, racional e sem nenhuma crença espiritual, indo atrás de uma terapia que envolvia “curar a alma” com a tal energia vital universal? Parece coisa de filme, mas quando o desespero bate, você abaixa a guarda mental.
Tudo começou com minhas crises de ansiedade. Aquelas sensações sufocantes que me faziam pensar que o mundo estava desmoronando sobre mim. Eu estava cansada de viver com essa angústia constante, e foi quando uma colega de trabalho sugeriu o Reiki. “Experimenta, vai te fazer bem”, ela disse. Na época, eu estava desesperada o suficiente para tentar qualquer coisa que pudesse me ajudar a recuperar o equilíbrio emocional.
Então, lá estava eu, numa salinha com uma terapeuta que se autodenominava “canal de energia”. Eu não sabia o que esperar, mas estava disposta a dar uma chance a essa história de realinhar chakras. A terapeuta me explicou que o Reiki se tratava de transmitir energia pelas mãos, canalizando-a para as áreas que precisavam de cura. Eu confesso que fiquei com mais dúvidas que respostas, mas que mal poderia fazer, certo?
Fechei os olhos, respirei fundo e me permiti experimentar aquilo. Senti um calor emanando das mãos da terapeuta enquanto ela passava-as sobre o meu corpo. Era uma sensação agradável, uma espécie de carinho energético que parecia acalmar cada parte de mim.
Ela ainda misturou técnicas, usando cristais para realinhar meus chacras e terminou com alguns minutos de Shiatsu (que eu nunca tinha ouvido falar).
Enquanto eu estava de olhos fechados, senti um sono incontrolável e uma espécie de clareza mental. Meus ombros relaxaram e eu quase ‘derreti’ naquela maca, como se a energia que fluía pelas mãos da terapeuta estivesse dissolvendo cada nó em meu ser.
Ao final da sessão, me senti mais leve do que havia chegado. A angústia que parecia tão opressora antes se transformou em algo mais suave. Como uma leve alegria ao comer um bombom em meio a uma crise de choro.
Não preciso nem dizer que saí de lá direto para o Google. Pesquisei sobre a energia vital universal, li sobre os diferentes símbolos e como eles influenciavam o realinhamento dos chacras. E, aos poucos, fui entendendo que o Reiki não era só um conjunto de crenças esotéricas, mas uma ferramenta de autocura e autoconhecimento, incluse disponibilizada pelo SUS e reconhecida pela OMS.
Eis a mágica: autoconhecimento e validação científica.
Aquele ceticismo que me dominava antes estava sendo questionado, e eu me permiti explorar dimensões que nunca havia imaginado.
O Reiki foi um ponto de partida para meu mergulho em outras terapias holísticas. Ele me abriu os olhos para a possibilidade de que existem diferentes formas de cura que vão além do que a medicina tradicional oferece.
E sabe, não estou dizendo que o Reiki é uma panaceia para todos os problemas da vida. Ainda enfrentei muitos desafios, mas essa terapia me ensinou que a cura não é apenas física, mas também emocional e espiritual.
E aqui, devo dizer que não estou fazendo propaganda do Reiki, mas gostaria de mostrar como uma sessão diferente de tudo o que eu já tinha experimentado conseguiu me acalmar o suficiente para me fazer questionar minha sanidade mental. Será que eu estava louca ou será que tudo aquilo realmente tinha funcionado?
Seja o que for, eu estava realmente melhor e a terapeuta se tornou minha amiga. A gente toma um café toda vez que conseguimos nos encontrar.
Ainda cética, decidi pesquisar mais e tentar outras jornadas, porque se tem uma coisa que pessoas racionais precisam é entender o mecanismo das coisas, das terapias e o porquê de cada movimento. Para isso, preciso de mais experiências.
