Walter Benjamin na era da inteligência artificial

Walter Benjamin escreveu, em 1935, que a obra de arte perdia sua aura na era da reprodutibilidade técnica. Bastava que uma imagem fosse copiada mil vezes, industrialmente, para que ela deixasse de ser única e, com isso, deixasse de carregar aquele silêncio sagrado de algo que só pode ser visto uma vez, num lugar específico, com um tempo que não se repete.

Na época, ele falava do cinema, da fotografia, do cartaz político. Tudo muito novo naquele momento. Ainda não havia feed, não havia algoritmo, não havia prompt. Mas ele já sentia que algo se perdia quando o olhar era substituído por consumo.

Agora estamos em 2025, e a questão nem é mais “cadê a aura?”. A pergunta mais justa seria: o que sobrou de humano em uma obra criada sem mãos, sem silêncio, sem espera?

A inteligência artificial não copia. Ela simula. E essa simulação, feita em escala e velocidade quase religiosa, não apenas repete o que já foi feito, mas antecipa o que você quer ver antes de você saber que queria. Isso muda tudo. Porque o artista sempre ofereceu o incômodo. A pausa. A IA oferece resposta. Aperfeiçoamento. Imitação do desejo.

Talvez a aura já tivesse morrido antes da IA. Talvez ela tenha começado a desaparecer quando a arte virou conteúdo. Quando o tempo de criação passou a ser medido pelo engajamento. Quando escrever virou algoritmo e pintura virou produto de trend.

Mas agora a sensação é outra. Não é só que a aura morreu. É que ela não faz mais falta.

A imagem não precisa mais ser original. Basta que ela funcione. O texto não precisa mais ser escrito com dor, nem com dúvida. Basta que ele gere cliques. O rosto não precisa mais envelhecer. O corpo não precisa mais dançar. A emoção não precisa mais ser sentida, desde que pareça verdadeira.

A estética venceu a experiência. A performance venceu a presença. E o mais assustador: o público nem sempre percebe a diferença.

Eu não estou dizendo que a IA não tem beleza. Ela tem. Às vezes, uma beleza até dolorosa, justamente por ser tão eficiente. Mas o que falta, mesmo quando não se nota, é a imperfeição de quem erra tentando dizer alguma coisa. Falta o tempo não controlado. O traço inseguro. A falha. O calor de quem não sabia se estava fazendo direito, mas fez mesmo assim.

Isso, talvez, fosse a tal da aura.

E agora que tudo é previsível, replicável e desejável, fica uma pergunta quieta no fundo da cabeça: o que ainda é obra de arte, quando tudo virou dado?

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