ou: por que talvez eu não sirva para uma entrevista de emprego
Faz muito, mas muito tempo que eu não faço uma entrevista de emprego. Anos. E vou te dizer uma coisa: o emprego fixo, o tal do CLT, nunca foi muito a minha cara. Não é nem por revolta ou rebeldia, não. É só porque eu preciso ter tempo livre. Preciso conseguir organizar meu dia conforme o meu humor. Se eu acordei introspectiva, quero silêncio. Se eu acordei falante, deixem-me criar.
Então, apesar de ser millennial, eu sempre pensei um pouco como a geração Z. Liberdade de horário, autonomia, trabalhar de moletom e fazer pausa pra café olhando a parede. Coisas que o escritório tradicional não permite.
Mas olha, não sou louca de desvalorizar o CLT. Acho que é a coisa mais importante do mundo… pra quem aguenta. Porque tem estabilidade, tem segurança, tem o dinheiro pingando certinho. Já na minha vida desregrada de autônoma, eu acordo e escolho qual vai ser o estresse do dia: ou eu fico sem cliente e me estresso porque não tenho dinheiro pra pagar as contas, ou fico com cliente demais, e aí me estresso porque não tenho tempo nem pra fazer xixi.
Esses dias, entre um job e outro, eu estava com poucos clientes e resolvi dar uma olhada em umas reportagens sobre entrevistas de emprego. Vai que um dia eu resolvo me candidatar a alguma coisa — mesmo que só por esporte. E achei uma matéria sobre as mentiras mais contadas nas entrevistas.
Bom, aí eu já comecei a rir. Porque percebi que talvez eu realmente não sirva pra isso. Não porque eu não tenha capacidade, mas porque eu simplesmente não sei mentir. Eu ia ser aquela pessoa que o recrutador descarta na primeira resposta.
A mais clássica:
“Saí da empresa porque queria novos desafios.”
Mentira. Se eu saí de uma empresa, foi porque fui demitida, ou porque eu peguei ranço de alguém. Ranço mesmo. Do colega, do ambiente, do chefe, da cadeira. Não foi por desafio nenhum. Eu saí porque não dava mais. Estava estressada. Então sim, estou procurando outra empresa porque preciso pagar meus boletos, e só por isso.
“Tenho inglês avançado.”
Essa até que eu tenho. Escrevo meus livros em inglês, inclusive. Mas assim, se me colocarem pra falar, talvez enrosque. Porque minha dicção é ruim até em português. Um americano provavelmente vai achar que eu sou um gerador de som aleatório. Mas juro que o problema é a dicção.
“Meu maior defeito é ser perfeccionista.”
Kkkkkkk não. Meu maior defeito é o humor que tem mais fases que a Lua. Se ficou passável e ninguém reclamou, então tá ótimo. Eu sigo o lema do “melhor feito do que perfeito”.
“Sou especialista em trabalho em equipe.”
Amor, eu fujo de trabalho em equipe. Eu gosto de receber a demanda por e-mail, resolver sozinha e devolver sem falar com ninguém. Eu não sou do time do brainstorming, da call de alinhamento, da integração no Slack. Eu gosto do meu silêncio. Eu sou uma excelente funcionária solo. Se me obrigarem a fazer dinâmica de grupo, eu desisto da vaga.
“Tenho total disponibilidade de horário.”
Como assim? Eu durmo! Eu tenho fim de semana! Eu tenho crise existencial às 15h e vontade de tomar café às 16h45. Minha disponibilidade é de segunda a sexta, horário comercial. E se for das 9h05, melhor ainda. Qualquer coisa fora disso precisa ser negociada com meu sono e minha sanidade.
“Domino tal ferramenta.”
Nunca mentiria que sei usar um software que nunca vi na vida. Se eu não sei, eu não sei. Posso aprender? Posso. Mas não garanto prazo. Inclusive, se o trabalho depender disso, talvez eu nem me candidate. Não vou me meter numa vaga que exige o domínio de algo que eu não domino nem o nome.
“Estou preparada para assumir este cargo.”
Jamais. A síndrome do impostor mora aqui. Não sei se estou preparada, não. Mas eu faço. Faço o melhor que dá. Me esforço. Me viro. A gente vai aprendendo, né? Então, se me perguntarem se estou 100% pronta, a resposta vai ser “não sei, mas bora tentar”.
“Tenho total aderência à cultura da empresa.”
Gente… qual cultura? A de lucrar em cima da minha hora? Óbvio que não tenho total aderência a isso. O acordo é simples: eu vendo meu tempo, você me paga. Eu entrego, você finge que valoriza. E tá tudo certo. Não precisa romantizar a relação.
No final da reportagem, diziam:
“A verdade ainda é o melhor argumento.”
Tomara. Porque se for verdade mesmo, talvez eu passe. Mas aviso logo: minha verdade não vem com filtro nem versão beta. Ela vem do jeito que é. Com honestidade, sarcasmo e café.
Se um dia eu resolver voltar pro mercado formal, a gente compensa com bom humor. E com entrega.
E isso, vamos combinar, também vale muito.
