Em 2025 eu fiz uma pequena consultoria e ouvi uma frase que ficou ecoando na minha cabeça por meses. Segundo o consultor, eu deveria lançar um livro a cada seis meses para que meus leitores começassem a me ver em todos os lugares e sempre tivessem alguma novidade para acompanhar. A ideia era simples, presença constante cria lembrança. O problema é que a vida real raramente colabora com ideias simples.
Tudo isso começou depois que eu escrevi Nocaute do Amor, um livro que eu gostei muito, mas que achei extremamente difícil de divulgar. Marketing literário no Brasil, sem dinheiro, é praticamente um esporte radical. Eu sou o tipo de pessoa para quem dez reais fazem diferença no orçamento. Preciso me organizar muito bem para conseguir imprimir livros e ir para bienais. Nada vem fácil, nada sobra.
E 2025 resolveu testar essa organização ao máximo. Foi um ano cheio de imprevistos financeiros. Computador quebrado, carro batido e sem seguro, pensões atrasadas. Aquele pacote completo de situações que drenam energia, foco e dinheiro ao mesmo tempo. Foi nesse contexto que eu decidi fazer a consultoria. Eu precisava entender como divulgar sozinha da melhor forma possível.
A resposta foi direta. Escreva mais livros.
O detalhe inconveniente é que, em 2025, entrei decidida a terminar a minha série. A série Thornwood, que começou com três livros e, de repente, virou cinco. E vai terminar no cinco. Isso não é uma promessa vaga, é uma obsessão pessoal. Essa história me acompanha há pelo menos 25 anos e eu quero dar a ela um fim digno. O problema é que, quando eu estou mergulhada nela, eu só consigo pensar nela. O tempo todo.
Depois de Nocaute do Amor, eu tentei entender por que aquele livro tinha sido tão diferente de escrever. E a resposta era simples. Ele foi um livro-refresco. Um livro que eu escrevi para dar férias ao cérebro. Thornwood começou como uma fantasia gótica relativamente tranquila e, sem pedir permissão, virou uma intriga política extremamente complexa. Eu estava cansada, estressada e precisando respirar. Escrevi Nocaute do Amor para me divertir e, ao mesmo tempo, me desafiar a escrever cenas de luta, algo de que eu sabia que iria precisar depois.
Funcionou. Eu me diverti, relaxei e voltei para a série principal com a cabeça mais leve.
Só que, já em 2025, eu acabei empacando depois de escrever o quarto livro de Thornwood. A revisão do penúltimo estava demorando e eu não queria seguir com o último sem essa base bem resolvida. Ficar parada, para mim, é angustiante. Então eu fiz exatamente o que tinha feito antes. Comecei outro livro.
O Amor Come Espaguete já existia na minha cabeça há muito tempo. Estava fresco, vivo, alimentado por memórias antigas, inclusive de uma viagem à Itália que eu fiz vinte anos atrás. Eu pensei que seria fácil. E foi. Escrevi o primeiro rascunho em três semanas. Depois parei, deixei o texto descansar, engavetei por um mês e voltei para ele com outros olhos. Reescrevi boa parte, organizei personagens, cortei excessos, passei um pente fino. Em cerca de três a quatro meses, o livro estava pronto e revisado em português.
Eu lancei O Amor Come Espaguete sem grandes pretensões. Queria cumprir a meta sugerida na consultoria e seguir em frente. Só que o livro ficou bom. As pessoas começaram a gostar, a comentar, a indicar. Ele apareceu na mídia de um jeito que eu não tinha conseguido antes. Aprendi a escrever releases, cartas de apresentação, a conversar melhor com jornalistas. Pela primeira vez, senti que estava entendendo o jogo.
Esse é um livro muito próximo da minha voz. Mais sarcástico, mais ácido, mais disposto a apontar os erros do mundo e das relações. Ele nasceu como uma pausa da fantasia épica, mas não é uma comédia romântica vazia. Eu não consigo escrever sem criticar. Tudo o que eu faço passa por relacionamentos, sejam profissionais, de amizade ou amorosos. Eu preciso falar desse mundo onde tudo virou algoritmo, onde tudo virou like, onde tudo parece performance.
O Amor Come Espaguete foi escrito como férias de Thornwood, mas acabou se tornando um dos lançamentos mais honestos que eu já fiz. Espero, de verdade, que quem leia se divirta muito. E que, no meio da diversão, também se reconheça, questione e pense um pouco. Isso, para mim, já valeu cada linha escrita.
