Sobre Stranger Things

Relaxing under a blanket fort with popcorn and Stranger Things playing. Perfect for movie night ambiance.

Stranger Things chegou ao fim e eu confesso que fiquei com aquela sensação incômoda de “era pra ter sido mais”. A primeira temporada foi impecável. Aquela vibe meio Stand By Me, infância, amizade, bicicleta, mistério, anos 80 bem construídos, tudo funcionando com precisão emocional. Foi uma série que começou sabendo exatamente o que queria ser. O problema é que, no meio do caminho, ela parece ter esquecido disso.

Demorou demais. Demorou para continuar, demorou para responder o público, demorou para sustentar o próprio impacto. E quando uma série demora demais, ela paga um preço alto. O esfriamento. O hype esfria, a conexão esfria, a suspensão de descrença começa a falhar. Em algum momento, já não dava mais para comprar a ideia de que aquelas crianças ainda eram crianças. Elas cresceram, os atores, os personagens, a própria narrativa, mas a série insistiu em fingir que o tempo não tinha passado do mesmo jeito para todos.

Não sei exatamente se o problema foi técnico, de produção, de efeitos, de decisões criativas ou simplesmente falta de urgência narrativa. Só sei que essa demora toda acabou sabotando a história. E isso acontece com muitas séries longas. Começam com uma proposta forte, mas não conseguem sustentar a tensão emocional até o fim. Mesmo com fãs extremamente fiéis, fica claro que o desfecho não entregou tudo o que prometeu.

E isso me dói um pouco, porque Stranger Things me pegou logo no início por um motivo muito específico. Quando a história da Eleven começou a se revelar como um experimento de laboratório, algo criado, manipulado, testado, eu pensei imediatamente: opa, isso conversa com o que eu escrevo. Eu não trabalho com terror, mas sempre flertei com ficção, com esse limite entre o humano e o que foi fabricado. Aquela ideia de poder não como dom, mas como consequência de algo errado.

Essa origem da Eleven me lembrou diretamente da base do meu universo em Thornwood. Sem entrar em grandes spoilers, os poderes dos meus personagens também vêm de uma experiência de laboratório que deu errado, algo que não deveria ter existido e não sobreviveu como planejado. Então acompanhar Stranger Things sempre teve esse temperinho extra para mim, aquele estímulo criativo, aquela comparação silenciosa que todo escritor faz.

Mas ficou só nisso. Na semelhança conceitual. Porque enquanto a série precisava lidar com o tempo real, com atores crescendo, com expectativas infladas e pausas longas demais, eu tive uma vantagem enorme. Demorei 26 anos para escrever essa história, é verdade, mas sem precisar fingir que meus personagens não estavam envelhecendo junto comigo. Sem precisar congelar o tempo para sustentar uma estética.

No fim, Stranger Things é um ótimo exemplo de como uma ideia brilhante pode perder força quando se estende além do que consegue sustentar. Fica aquele gosto agridoce de algo que começou genialmente e terminou cansado.

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