Vi uma reportagem no G1, baseada em uma matéria da BBC, sobre Coober Pedy, a cidade australiana onde as pessoas vivem embaixo da terra para sobreviver ao calor extremo. E, enquanto eu lia, tive aquela sensação meio incômoda e maravilhosa ao mesmo tempo de quem percebe que acabou de ganhar repertório novo sem nem estar procurando por isso.
Existe uma ideia muito romantizada de que escrever é inventar mundos do zero, criar tudo do nada, como se a imaginação precisasse ser completamente autônoma da realidade. Mas a verdade é quase o oposto. Quanto mais você lê, observa e se expõe ao mundo, menos você precisa inventar. O mundo já é absurdo, engenhoso e estranho o suficiente.
No quinto livro de Thornwood, eu precisava criar um local isolado. Já tinha escrito uma vila remota, com aquelas soluções que a fantasia costuma usar quando quer explicar o isolamento de um grupo de pessoas. Funcionava. Era coerente. Mas era previsível. Quando me deparei com a reportagem sobre Coober Pedy, tudo mudou. Pessoas vivendo em casas escavadas no arenito, igrejas subterrâneas, hotéis, áreas de camping debaixo da terra, tudo para escapar de temperaturas que chegam a mais de cinquenta graus. Um lugar onde, na superfície, parece que não há nada, mas onde a vida pulsa inteira no subsolo.
Eu reli o capítulo e entendi que precisava reescrever tudo.
Não porque minha vila estivesse errada, mas porque ela estava pobre de mundo. Faltava espessura. Faltava aquela sensação de realidade que só aparece quando a ficção encosta em algo que existe de verdade. Quando o leitor pensa “isso é absurdo”, mas logo em seguida “espera, isso poderia existir”.
Ter repertório não é acumular referências para parecer inteligente. É ferramenta de trabalho. É o que permite que você escreva menos clichê, menos solução fácil, menos mundo genérico. É o que faz uma história respirar.
Depois daquela leitura, Thornwood ficou mais divertida, mais densa, mais estranha. Do jeito que eu queria. Não porque eu inventei algo mirabolante, mas porque o mundo já tinha inventado antes de mim.
Existe algo muito libertador em aceitar que não precisamos criar tudo sozinhos. Existem coisas e lugares incríveis no mundo real, esperando apenas que alguém os observe com atenção suficiente para transformá-los em ficção.
