Por muito tempo, acreditamos que a justiça era uma virtude. Que ser justo era, acima de tudo, um exercício de moral, de caráter e de equilíbrio. Mas hoje, é difícil sustentar essa crença com os olhos abertos. Basta olhar ao redor.
O que vemos nos tribunais e nos cursos de Direito é menos vocação, mais vaidade. Menos senso de dever, mais sede de status. Ser juiz deixou de ser um chamado e virou um cargo recheado de regalias, distanciado da realidade, onde as decisões nem sempre nascem da ética, mas da conveniência.
A balança da justiça já não pesa com neutralidade. Ela se inclina a quem pode mais. A quem paga mais. A quem manipula melhor o sistema. Juízes que deveriam zelar pela moral pública, hoje se curvam diante do próprio bolso.
E nas universidades, onde deveríamos formar mentes inquietas e comprometidas com o bem comum, formamos egos inflados. Jovens que decoram leis, mas não entendem a vida. Que citam doutrinas, mas não ouvem o povo. Que querem vencer debates, mas não sabem ouvir histórias.
A justiça perdeu sua vocação porque perdeu sua humildade. Quando a toga vira armadura, e não escudo do vulnerável, já não se pratica a virtude. Se encena poder.
Mas ainda há quem resista. Há vozes dissonantes, que escolhem a justiça como prática e não como palco. São poucas, mas existem. E é nelas que ainda podemos acreditar.
Porque a justiça só voltará a ser virtude quando deixar de ser instrumento. Quando for, novamente, escolha moral.
