Tem algo profundamente cansativo em observar o mundo pelas redes sociais. E esse cansaço não vem apenas do excesso de informação, mas da repetição ensurdecedora de um único discurso: o eu como centro de tudo. Todo mundo quer ser ouvido, mas quase ninguém quer ouvir. Todo mundo quer atenção, mas poucos têm algo real a dizer. E mesmo quem tem, acaba dissolvido nesse mar de egos performáticos onde a única regra é parecer interessante o tempo todo.
O protagonismo virou um produto. Uma marca pessoal. Uma persona vendável. E quanto mais autocentrado o discurso, mais ele tende a receber curtidas. Não importa o conteúdo — importa se a narrativa gira ao redor do eu. Meu café, meu corpo, meu trauma, meu progresso, meu recomeço, meu burnout, meu podcast, minha luz. A estrutura narrativa é a mesma: estou te contando sobre o mundo, mas de um jeito que nunca sai de mim.
A questão é que essa encenação repetida de si mesmo produz, inevitavelmente, o ranço. Não o ranço moralista de quem não suporta o outro. Mas o ranço existencial de quem sente que o excesso de eu produz um vácuo de significado. De tanto se olhar, ninguém se enxerga mais. O mundo vira uma vitrine de monólogos, onde cada pessoa grita sozinha, convencida de que está em um TED Talk sobre superação.
Isso me lembra a frase de David Foster Wallace: “Tudo o que você acaba fazendo para chamar atenção acaba, eventualmente, parecendo com um pedido de socorro.” Talvez o protagonismo exagerado que vemos hoje nas redes seja isso: um pedido de socorro travestido de influência. Uma tentativa desesperada de afirmar uma identidade que, no fundo, está em colapso.
Mas o que irrita — o que realmente nos incomoda — não é só a falação do outro. É que, no fundo, vemos ali um pedaço de nós mesmos. É o narcisismo das pequenas diferenças de Freud: a antipatia profunda que sentimos por quem se parece demais com a gente, por quem revela o que tentamos esconder. Aquela pessoa autocentrada nos lembra do quanto também queremos ser vistos. A dor de não ser suficiente, da inveja do espaço que o outro ocupa, a vergonha daquilo que somos, projetada no outro.
E então o que chamamos de “autenticidade” nas redes vira só mais uma estratégia de marketing. Até o espontâneo parece roteirizado. Até o erro parece intencional. A vulnerabilidade é postada com a legenda perfeita, a foto desfocada na medida certa, a lágrima na hora certa, e tudo isso embrulhado num CTA: “Salve esse post se fez sentido pra você”.
No fim das contas, o protagonismo em excesso não revela o sujeito. Ele o engole. Ao tentar ser demais, o eu implode. E talvez por isso as redes sociais pareçam cada vez mais insuportáveis: porque mesmo rodeados de gente, estamos todos sozinhos. Sozinhos dentro de nós mesmos, tentando provar que existimos. Tentando, como diz a filósofa sul-coreana Han Byung-Chul, preencher o vazio da falta de ser com o excesso de aparecer.
Mas o que sobra quando o outro não escuta? O que sobra quando só há monólogos em eco? Sobra o bode. Sobra esse enjoo difuso de tudo que se mostra demais — e ao mesmo tempo não mostra nada.
Talvez seja hora de silenciar. De ouvir de verdade. De lembrar que presença não se mede em views. Que protagonismo real é aquele que sabe ceder espaço. Que fala com quem está do lado, não apenas com a câmera. Talvez — e só talvez — esse seja o único protagonismo que ainda vale alguma coisa.
