O Enterro da Noiva

Tive um sonho que qualquer psicólogo adoraria destrinchar com um bloquinho de anotações. Eu havia sido convidada para um casamento intimista, desses chiques, conceituais, que acontecem em hotel caro e prometem experiências transformadoras. A cortesia para as convidadas era um dia inteiro de spa. Já começa aí o primeiro sinal de que esse sonho não era sobre amor, mas sobre prioridades bem definidas.
Eu não conhecia os noivos. Nem um pouco. As mulheres que estavam comigo eram conhecidas no sonho, mas inexistentes na vida real. Lá estava eu, entregue à experiência: massagem, ofurô, esfoliação, aquele clima de “vou sair daqui uma nova pessoa”.
Em determinado momento, chega a notícia de que a noiva tinha sofrido um acidente a caminho do hotel. Fiquei abalada? Não. Continuei no banho quentinho pensando apenas que era melhor aproveitar tudo enquanto dava, porque nunca se sabe quando uma tragédia vai interromper a programação do spa.
O tempo passou. Dormi profundamente em uma cama enorme e confortável, daquelas que fazem você questionar todas as escolhas imobiliárias da sua vida. Ao acordar, a notícia definitiva: a noiva havia morrido.
Fiquei triste? Também não.
Corri imediatamente para o spa para aproveitar a cortesia até o último segundo permitido. E foi ali, mergulhada no ofurô, que a cena atingiu seu auge simbólico. Pela janela, eu conseguia ver o enterro. A noiva estava de vestido de casamento. Meia dúzia de pessoas choravam na chuva. E eu? Linda, plena, hidratada, curtindo o quentinho da minha própria companhia.
Enquanto o mundo lamentava um amor interrompido, eu celebrava a paz de não precisar fingir emoções que não eram minhas.
Meu terapeuta provavelmente concluiria que estou desistindo do meu lado romântico para aceitar, com dignidade e espuma aromática, a solteirice. E ele não estaria errado. Essa também foi a minha interpretação.
Se isso é desistir do amor, que seja. Mas que seja com a pele macia, a mente tranquila e a certeza de que eu sou excelente companhia para mim mesma. E é, assim, queridos, que surge a cena para mais um livro.

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