Minha estreia como atriz — e tudo que o palco me ensinou sobre estar viva

No penúltimo fim de semana de junho, eu subi no palco como artista pela primeira vez. E o que aconteceu ali foi completamente diferente do que eu havia imaginado. Digo isso com o corpo inteiro, porque nada que você projeta é capaz de prever o que se sente ao viver algo assim.

Foram três dias de apresentação. Duas sessões por dia. Um teatro que cabia 100 pessoas — o que pode parecer pequeno para alguns, mas pra mim já era muito. E o mais louco: todas as sessões lotaram.

Lotaram mesmo. Com gente sentada, rindo, chorando, vibrando com a gente. Em pleno feriado prolongado. Em um fim de semana com parada LGBTQIAP+ acontecendo na cidade. E mesmo assim, seis sessões completamente cheias. Foi mágico.

A peça era uma adaptação do Auto da Compadecida, que completa 70 anos agora em 2025. Atualizamos o texto, modernizamos algumas falas, incluímos memes e piadas do nosso tempo — e talvez tenha sido isso que fez tanta gente se conectar. Ao todo, foram cerca de 600 pessoas assistindo algo que a gente criou com as mãos, a garganta, o suor e a fé.

E olha… o público não fazia ideia de que éramos amadores. Ouvi gente dizendo que parecia coisa de profissional. Teve uma senhora que falou: “vocês têm certeza que essa é a primeira peça de vocês?”. E eu, rindo nervosa, disse: “quase certeza”.

Nossa professora até sugeriu que a gente inscrevesse a peça em festivais. Com prêmios em dinheiro, inclusive. E ali, naquele momento, eu percebi: talvez eu realmente possa ser atriz.

Minha personagem era o Encourado — aquele que acusa os pecados, que confronta todo mundo, que é mais sombra do que luz. E quer saber? Eu me diverti demais. Mas também me desafiei muito. Principalmente em casa.

Minha mãe foi me assistir. E levou meu pai. Um homem extremamente religioso. Quando descobri que ele ia, liguei pra minha mãe imediatamente:

— Você tem certeza que vai levar o pai?
— Ué, por quê?
— Porque ele vai me exorcizar na saída do teatro. Vai ligar a mangueira na água benta e me dar um banho na calçada, vai me esfoliar com óleo ungido e me perguntar se eu fui possuída.

Ela riu e disse que já tinha avisado ele que eu era “a diaba” da história, e que Jesus era mulher (sim, ela pontuou os dois como igualmente graves). Me lembrou de como certos temas ainda geram desconforto até dentro da nossa própria casa.

Mas o palco… o palco não julga. O palco acolhe.

Ali, eu encontrei mais do que uma nova profissão: encontrei um grupo. Um coletivo. Uma turma que confiou um no outro, mesmo com sono, cansaço, trabalho, inseguranças. A gente ensaiou, fez passadão de cena tarde da noite, se organizou, se respeitou. Ninguém brigou. Ninguém abandonou. A peça nasceu da confiança.

E isso, pra mim, foi o mais transformador.

Porque eu fui pro teatro querendo quebrar uma coisa em mim: essa tendência de escolher a solidão.
No palco, não tem como fazer tudo sozinha.
Não dá pra montar uma história sozinha.
Não dá pra salvar uma cena sozinha.
E, sinceramente? Também não dá pra viver sozinha.

A peça foi um sucesso porque foi feita por gente que se uniu. Porque foi feita com amor, com entrega, com riso. Teve sessão em que a gente nem estava tão bem — mas foi a que mais arrancou gargalhadas do público. E isso também é o teatro. O erro que acerta. O improviso que salva. A fraqueza que vira cena.

Agora, eu só consigo pensar numa coisa:
mal posso esperar pelo segundo semestre.

Vivy Corral

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