Desde que eu era muito pequenininha, percebi um incômodo com o país em que nasci. Eu não gostava do jeito que as pessoas me agarravam, me davam beijo, me davam abraço. Eu gostava de ficar quietinha. Não toquem em mim.
E isso, é claro, muito rápido se transformou em: ela é antipática, antissocial, ela é isso, ela é aquilo.
Como eu não tinha muito jeito, afinal era pequena, menor de idade, menor até de 10 anos, e era arrastada para lugares nos quais não me sentia confortável, porque meus pais queriam socializar. E quais eram esses lugares? Praia. Clubes.
A casa da minha avó, por exemplo, tinha na esquina um bar onde eu via muita roda de samba, carnaval, futebol. E toda vez que eu chegava nesses lugares, eu tinha aquela mesma sensação: um monte de gente grudando, suada, pra se esfregar em mim.
Fui crescendo com essa sensação de que eu odiava o Brasil. Odiava esse lugar onde nasci.
E não é que eu tomei aquilo como verdade logo de cara. Eu fiz testes. Tentei ir à praia e gostar. Mas toda vez que eu ia, sentia a areia grudando no meu corpo de uma maneira tão desconfortável que, tomando banho todos os dias, sistematicamente, me esfregando da cabeça aos pés, eu ainda encontrava grãozinhos de areia dentro da minha orelha ou perdido na minha cabeça. Duas semanas depois. Isso me dava um ódio profundo.
Meus pais achavam que eu era fresca, então me levaram para uma praia de alto padrão, o tal do Jurerê Internacional, em Santa Catarina. E foi justamente lá que eu peguei o bicho geográfico. Foi a pior coisa que já me aconteceu na vida.
Você já viu esse bichinho? Ele entra no seu corpo e fica andando, sem muito critério, desenhando caminhos na sua perna como se você estivesse traçando um mapa. É uma coceira insuportável. E aquilo só deixou uma coisa clara: eu não gosto de praia. Não gosto de calor. Não gosto de muita gente reunida.
Toda vez que está calor, eu acordo num mau humor absurdo. Não consigo dar bom dia com honestidade. Minha cara já denuncia: estou de pressão baixa, estou com dificuldade pra pensar, pra me locomover. Isso quando eu realmente não acordo direto no chão, por conta de ter suado demais à noite, passado mal, hipoglicêmica, com a pressão lá embaixo. Enfim. Coisas que acontecem, e muito, no verão.
Mas aí, agora, com 40 anos de idade, eu descobri: eu não odeio o Brasil. Nem um pouco.
Eu odeio Carnaval. Eu odeio Natal. Eu odeio Ano Novo. Eu odeio praia. Eu odeio samba. Eu odeio pagode. Eu odeio toda essa composição que aparece durante o verão e a primavera no Brasil. Quando o clima está acima dos 20 graus, tudo que compõe esse pacote é imediatamente odiado por mim. Pelo meu corpo. Pela minha fisiologia.
E por que eu descobri isso? Porque eu amo festa junina.
Esse ano, fui a uma festa junina com 10 graus e estava extremamente feliz. Feliz, contente, brincando, de bom humor, conversando com as pessoas, comendo canjica, arroz doce, tomando quentão, vinho quente. Naquele dia, percebi que o Brasil é o melhor lugar para se estar durante o inverno. Junho é o melhor mês do ano.
Pois é. Depois de 40 anos, mudei radicalmente de opinião.
Eu não odeio o Brasil. Eu odeio aquela parte do Brasil que compõe o verão. Eu odeio o Natal brasileiro. Eu odeio o Ano Novo. Eu odeio carnaval. Eu odeio marchinha de carnaval. Eu odeio samba mal feito, pagodinho de carteira de escola. Eu odeio funk.
Mas eu adoro o Tom Jobim. Eu adoro o Caetano. Eu adoro o Chico. Eu adoro a Gal. Eu adoro o Luiz Gonzaga. Adoro uma Asa Branca, gente.
Então está aqui a verdade (pra vocês e pra mim mesma) depois de tanto tempo: o que eu odeio é o calor. Essa temperatura acima de 20 graus, na qual você está simplesmente derretendo e não tem o que fazer. Ou você arruma um ar-condicionado, ou você morre.
É isso que eu odeio.
O inverno? Oh, show.
