Eu escrevo sobre amor, apesar de não acreditar mais nele

Escrever sobre amor quando já não se acredita nele é uma forma curiosa de resistência. Ou de insistência. Talvez um modo silencioso de permanecer próxima daquilo que um dia pareceu possível, mas que hoje soa cada vez mais como ficção. No meu caso, literalmente.

Escrevo comédias românticas. Construo finais felizes. Invento diálogos que só funcionam entre duas pessoas dispostas a se ouvirem com paciência e presença. Mas a verdade é que já não espero esse tipo de conexão fora da página. O mundo real parece não ter tempo, nem vocação, nem vocabulário para isso.

Aristóteles dizia que tudo caminha para sua causa final, e que a do ser humano é a felicidade. Essa ideia, que move tantos discursos sobre amor, também é o que sustenta boa parte da ficção que escrevo. Porque ainda que eu mesma não esteja feliz nesse campo, ainda posso escrever personagens que buscam a tal eudaimonia. Ainda posso lhes oferecer aquilo que a vida não me deu.

Na vida real, há algo exaustivo na tentativa constante de fazer o amor funcionar. Ele já não é um encontro, mas uma negociação. Já não é abrigo, mas desempenho. Amar, hoje, exige um tipo de disponibilidade emocional que pouca gente parece disposta a oferecer. E quando oferecem, quase sempre vem acompanhado de alguma forma de manipulação disfarçada de afeto.

Epicuro, em uma conclusão na qual não usou essas palavras, deixou subentendido que se você conseguiu sair de uma relação amorosa sem trauma, teve sorte. Não parece exagero. O amor, do jeito que é praticado hoje, fere. Dói não só pelo que falta, mas pelo que sobra: excesso de expectativa, excesso de projeção, excesso de medo.

Vamos incluir aqui a ataraxia (ausência de perturbações), não como fuga, mas como alívio. Um estado de serenidade que não depende do outro, que não precisa de promessas nem performances. A paz de não desejar o que machuca. A leveza de não se moldar para caber nos caprichos alheios. Não é frieza. É maturidade. É cansaço de uma vida que exige demais.

E nesse mesmo caminho, o cinismo filosófico aparece como lucidez. Um olhar crítico sobre os rituais afetivos que nos vendem como indispensáveis. A ideia de que a felicidade só é completa com alguém ao lado. Que a validação externa substitui o silêncio interno. Que é preciso se adaptar para ser amado. O cínico questiona. Recusa. E com isso, recupera algo que o amor moderno perdeu: autenticidade.

Ainda escrevo sobre amor. Não porque acredito nele, mas porque ainda preciso conversar com ele de alguma forma. Talvez porque a escrita seja o único lugar onde posso controlá-lo, moldá-lo, dar a ele uma chance de ser menos destrutivo. Meus personagens ainda amam com esperança. Talvez porque eu, por trás deles, já não consiga.

Mas escrever é isso. Um modo de continuar buscando. É nomear o que já não se espera, mas ainda se precisa tocar.

E se, como dizia Aristóteles, a felicidade é o fim de tudo, talvez a minha esteja menos no amor e mais na capacidade de transformá-lo em linguagem. Porque me dá prazer entregar às minhas leitoras um pouquinho de conforto. E, para as mais positivas, um pouco de esperança. Em um amor romântico que talvez nunca tenha existido fora da ficção, mas que, por alguns instantes, ainda pode parecer real quando contado para diversão.

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