Não é mais suficiente ser bom.
Nem mesmo ótimo.
Hoje, você precisa ser inesquecível. Precisa performar genialidade enquanto entrega entretenimento, precisa parecer leve enquanto carrega a pressão de mil olhos julgando sua relevância. Precisa ter ritmo de criador de conteúdo, consistência de executivo de alto desempenho e, de quebra, alguma originalidade para não parecer um pastiche do algoritmo.
No mundo digital, o que se vende não é exatamente o que se é. É uma versão editada, filtrada, teatralizada de quem se deseja parecer. E isso seria apenas um detalhe se não estivéssemos todos pagando o preço psíquico dessa encenação.
Ser incrível virou uma obrigação.
Não porque a vida exige isso — mas porque a atenção exige.
E atenção, hoje, é dinheiro. Tempo de tela, cliques, engajamento — tudo isso se converte em moeda. Inclusive para escritores.
O leitor contemporâneo já não quer apenas um bom livro. Ele quer que o autor o entretenha nas redes. Quer que a escritora tenha carisma em vídeos curtos, que conte bastidores com humor, que compartilhe vulnerabilidades com timing. O texto em si já não basta. A narrativa agora precisa vir acompanhada de um rosto interessante, de uma persona apaixonante, de uma imagem vendável.
A plataforma nos molda. Como disse Marshall McLuhan: “O meio é a mensagem.”
E o meio digital exige que você seja veloz, visual e viral.
Sutileza não performa bem.
Complexidade não viraliza.
Silêncio não monetiza.
E então, entramos todos no jogo. Montamos a vitrine. Publicamos o bolo lindo. Postamos a legenda fofa. Mas por dentro, sabemos: o gosto não sustenta. A textura emocional é rala. O tempo de cozimento foi apressado. O sabor… chocho.
Antigamente, ao assistir um filme como 2001: Uma Odisseia no Espaço, a reação comum era: “preciso estudar mais para entender.” Hoje, a reação mais compartilhada é: “que filme chato, não entendi nada.” A lógica da performance contaminou até nossa disposição para o estranho. O conteúdo precisa ser imediato, digestível, explicado. E, de preferência, engraçado.
A arte que exige do público uma entrega foi sendo abandonada. Em seu lugar, a arte que distrai. E o artista, por sua vez, foi convocado a ser cada vez mais… um produto.
Vender-se virou requisito. E não se trata mais de vender um livro. Trata-se de vender a si mesma como um evento constante. Como um case de sucesso, como uma narrativa de superação, como uma “personalidade criativa” com bom repertório e ótimo engajamento. Como se alguém conseguisse ser tudo isso o tempo inteiro sem desmontar em silêncio, longe da tela.
Mas o que isso nos custa?
Nos custa tempo de verdade. Tempo de criação. Tempo de mergulho.
Nos custa a liberdade de ser pequeno, de ser falho, de não ser tão interessante.
Nos custa a possibilidade de existir sem audiência.
Nos custa a dignidade de fazer algo que não dê certo.
Protagoras dizia: “O homem é a medida de todas as coisas.”
Mas talvez hoje devêssemos atualizar essa máxima:
O algoritmo é a medida de todas as pessoas.
E quem não performa para ele, desaparece.
Só que existe uma rebeldia silenciosa em não querer ser incrível o tempo inteiro.
Existe dignidade em não viralizar.
Existe força em criar algo que não gere engajamento imediato.
Existe liberdade em não servir, o tempo todo, como distração.
Talvez o próximo passo da inteligência — e da sensibilidade — seja reaprender a gostar do bolo sem cobertura. Da arte sem legenda. Do texto que exige fôlego. Da conversa que não vira corte para reels.
Porque talvez seja isso que ainda nos diferencia das máquinas.
A capacidade de errar, de não entreter, de não explicar.
A capacidade de sentir.
De fazer sentido.
Ainda que devagar.
Ainda que para poucos.
