Adorno escreveu, lá no meio do século XX, que a cultura tinha virado indústria. Que o cinema, a música, os livros, tudo aquilo que um dia foi linguagem de ruptura, estava se transformando em produto empacotado. A arte passou a seguir fórmulas. A beleza virou consumo. O espectador deixou de ser alguém que sente, e passou a ser alguém que compra.
Naquela época, a televisão ainda era novidade. O rádio era rei. E já se via a repetição, a previsibilidade, o entretenimento como mecanismo de distração em massa.
Hoje, é tudo isso e com um feed infinito.
A crítica de Adorno parece mais viva agora do que no tempo em que foi escrita. Porque antes, a cultura era empacotada para muitos. Agora, ela é empacotada para você. Um para um. Curadoria algorítmica, sob medida, moldada nos seus dados, nos seus medos, nos seus cliques.
Você não escolhe o que vê. Você reage ao que aparece. E o que aparece foi escolhido para manter você olhando. Rolando. Consumindo. Sem pausa, sem crítica, sem consciência.
A indústria cultural se sofisticou. Antes, ela fabricava músicas parecidas, filmes parecidos, novelas com as mesmas caras. Hoje, ela fabrica personalidades. Gente que pensa parecido. Que fala igual. Que posta com a mesma voz. O artista virou marca. O autor virou avatar. O pensamento virou nicho.
Você já não precisa ser convencido a seguir um padrão. Basta que ele venha disfarçado de autenticidade.
Adorno tem razão de novo: o entretenimento virou uma forma de anestesia. Mas agora ele vem com legenda colorida, dancinha ensaiada, e um discurso de autoajuda por trás. Tudo parece positivo, leve, fácil de digerir. A indústria cultural não precisa mais censurar ideias incômodas. Ela só precisa te viciar nas confortáveis.
A cultura de massa agora é cultura de algoritmo. E o algoritmo, ao contrário do artista, não erra, não hesita, não sofre para criar. Ele entrega. Ele calcula. Ele responde. Ele te conhece melhor do que você mesmo.
E no meio disso tudo, fica a pergunta que Adorno deixaria no ar como quem acende um alerta dentro da alma: ainda é possível pensar de forma crítica num sistema que lucra com o seu conformismo?
A arte provoca. Ela fere um pouco. Ela faz você parar de rolar a tela por alguns segundos e lembrar que tem corpo. Que tem tempo. Que tem pensamento próprio.
Mas cada vez que clicamos no mesmo vídeo, que seguimos mais um influenciador que diz o que queremos ouvir, que tratamos cultura como conteúdo… a indústria vence mais uma vez.
E o que ela quer, no fundo, é simples: que você continue distraído. Pensar, hoje, é um ato de resistência.
