A Falsidade no Trabalho: O Teatro Corporativo e o Medo de Ser

Se existe um lugar onde a falsidade ganhou status de competência, é no ambiente de trabalho.

Sorria, mesmo que esteja à beira do colapso.

Fale com segurança, mesmo que não saiba o que está dizendo.
Participe da dinâmica. Faça o check-in emocional. Escreva no chat do Zoom que está tudo bem — ainda que sua alma esteja estendida no chão do banheiro tentando respirar.

No mundo profissional, parecer é mais importante do que ser.

A estética da segurança virou um ideal de sucesso. Quem fala com pausas calculadas e postura ereta é considerado mais competente. Quem hesita, questiona ou expressa vulnerabilidade é visto como “pouco preparado”, “sem perfil” ou “não tão maduro emocionalmente”.

Vivemos uma era em que ser falso não é mais um desvio — é uma ferramenta de sobrevivência.

Chamar isso de “networking estratégico” ou “branding pessoal” não diminui o estrago psíquico que isso causa.

Erving Goffman, em A Representação do Eu na Vida Cotidiana, já dizia que todos interpretamos papéis. O problema é que, hoje, os papéis exigidos pelas instituições são tão rígidos, tão vazios de autenticidade, que o sujeito precisa desaparecer para que o personagem continue sendo aclamado.

O verdadeiro produto vendido nos escritórios não é competência. É aparência de competência.

Estamos vivendo uma espécie de capitalismo afetivo, onde o valor do trabalhador não está só no que ele entrega, mas no quanto ele consegue encarnar o discurso da empresa. “Cultura organizacional” virou uma forma delicada de exigir performance emocional. E quem não performa entusiasmo o suficiente vira um risco.

Como escreveu Byung-Chul Han:

“O sujeito do desempenho se explora até cair. Ele se autoincendeia, acreditando estar se realizando.”

O Burnout, afinal, não é uma falha do sistema. É o funcionamento ideal dele.
Há falsidade, sim, mas não individual. Ela é sistêmica. Coletiva.

Todo mundo sabe que ninguém está 100% bem.
Mas todo mundo finge que está — porque sabe que precisa.

Há uma espécie de pacto silencioso que atravessa todas as organizações:
“Finja que acredita, e continuaremos te pagando.”
E a recíproca é verdadeira.

O problema é que essa farsa cobra caro. A ansiedade crônica, o medo de não sustentar o personagem, o ranço que cresce silenciosamente entre colegas — tudo isso se acumula como gordura rançosa, estragando o clima e contaminando o afeto coletivo.

E aí surge o bode, a antipatia, o desprezo por quem parece estar confortável demais.
Mas será que está mesmo?
Ou será só um ator melhor treinado para parecer?

É curioso perceber que o ranço costuma se manifestar nas duas pontas:
— temos ranço da pessoa que se acha demais;
— e temos ranço de quem se diminui para arrancar aprovação.

Ou seja, estamos todos exaustos da encenação.
Exaustos do coleguinha com frases de LinkedIn, da gestora com ar de guru, da cultura da positividade que ignora qualquer complexidade emocional que dure mais de um stories.

Porque, no fundo, talvez estejamos todos tentando desesperadamente não ser descobertos.
Descobertos como pessoas inseguras, frágeis, falíveis.
Descobertos como gente.

Mas não tem como trabalhar com verdade onde o humano não cabe.
A gente precisa de um novo acordo.
Um onde não seja necessário desaparecer para ser respeitado.
Um onde o sujeito seja mais importante do que o personagem.

 

Humorous skeleton model with glasses and tie, illustrating burnout and overwork in office environment.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *